As Confrarias

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

Ser confrade é ser membro de uma associação a que vulgarmente se chama confraria. As confrarias, principalmente as gastronómicas, destinam-se a divulgar e defender produtos gastronómicos com características únicas.

As duas confrarias raianas: a do Bucho e a dos Aromas e Sabores

As duas confrarias raianas: a do Bucho e a dos Aromas e Sabores

A origem das confrarias gastronómicas remonta à época do Império Romano onde surgiram os primeiros colégios mas com caracteristicas diferentes das actuais confrarias. No entanto, durante as últimas décadas diversas foram as associações de defesa de determinados produtos, por norma tradicionais, que foram criadas.
Independentemente do ambiente que estes colégios tinham ligados ao brejeirismo de certas tabernas onde os clientes disputavam os favores das empregadas, a verdade é que, associado a estas confrarias sempre esteve a realização de banquetes. Isto é, a comida sempre foi a pedra de toque da maioria destas organizações.
Mesmo hoje, em 2015, ainda é à mesa que muitos assuntos se resolvem, desde os profissionais, sociais, económicos e até politicos. As confrarias eram nem mais nem menos do que reuniões regulares de pessoas que se juntavam para comer e eventualmente resolver questões que se colocassem.
As confrarias profanas adoptaram muitos dos rituais e hábitos das confrarias religiosas, a que também se chamavam irmandades. A entrada de membros numa sociedade desse tipo era antecedida de rituais que ainda hoje são seguidos formados pelo juramento e outros actos solenes.
Nossa zona existem várias confrarias mas as mais significativas quando nos restringimos às terras de Riba Côa são duas: Uma no concelho do Sabugal, a Confraria do Bucho Raiano e outra no concelho de Almeida, a Confraria Gastronómica dos Aromas e Sabores Raianos.
160 - 1A Confraria do Bucho Raiano foi formalmente constituída por escritura pública no dia 6 de Maio de 2009 (aqui). A Confraria do Bucho Raiano tem como fins a divulgação do bucho como peça gastronómica de excelência das terras de Riba Côa. O bucho é a peça de enchido mais genuína das terras raianas do centro de Portugal. Manda a tradição que após a matança do porco se juntem num barranhão pedaços de carne provindos da cabeça, orelhas e rabo, de mistura com a carne que restou agarrada aos ossos. Coloca-se essa carne em vinha d’alhos durante três dias, após o que se enchem as bexigas dos próprios porcos, indo para o fumeiro a fim de aí secarem com o calor provindo da lareira. O nome de bucho não deriva da bexiga mas sim do estômago do porco que, nas terras rurais, era efectivamente o bucho.
O bucho, de dimensão maior da que a bexiga acabava por ser a iguaria de mais uma reunião familiar alargada em cada família, muito semelhante, nesse domínio, à matança. Já a bexiga, mais pequena tinha como destino uma parte mais restrita da família. Porém, hoje, é essencialmente em tamanho de bexiga de antigamente que podemos saborear o bucho raiano.
Dar a conhecer o bucho e contribuir para que se transforme numa oportunidade económica para a região raiana é o objectivo da Confraria do Bucho Raiano que organiza anualmente dois encontros: o Capítulo no sábado de Carnaval (em 2016 o VII Capítulo teve lugar no Soito) na região de Riba Côa e um outro encontro na região de Lisboa, em Novembro.
160 - 2Quase na mesma altura daquela surgiu outra (2008) no concelho de Almeida outra Confraria desta feita destinada à defesa e divulgação dos aromas e sabores raianos a que se chamou “Confraria Gastronómica dos Aromas e Sabores Raianos”.
Esta confraria embora imbuída dos mesmos princípios que a generalidade das confrarias gastronómicas, apresenta como finalidade não apenas a defesa de um ou outro produto gastronómico, mas uma plêiade de produtos genéricos da zona raiana. Esta característica generalista que acaba por ser uma espécie de democracia dos produtos raianos poderá vir a conduzir a que, a confraria se perca entre sabores e produtos na tentativa de defender todos, acabe por não defender nenhum.
Naturalmente que os seus fundadores e posteriores confrades certamente que terão as suas razões para este modelo, mas a mim parece-me arriscado. Provavelmente, um objectivo dirigido a um ou dois produtos locais e dos mais característicos, conduziria a resultados mais visíveis.
Por outro lado, esta confraria apresenta, na forma como foi criada uma característica que deve ser incentivada e com a qual só podemos concordar. A sua extensão à zona espanhola confinante até Cidade Rodrigo.
A diluição das fronteiras entre povos fronteiriços parece-me ser uma atitude positiva pois há muito que elas não existem entre as pessoas dos dois lados da raia. Basta circular por lá para se perceber que as fronteiras há muito desapareceram entre as gentes.
A expansão da área desta confraria aos nossos vizinhos, converte a zona da raia num território com características próprias que quando exploradas só podem beneficiar todos: Os de cá e de lá da linha que os nossos antepassados traçaram quando as lutas entre ambos os lados eram permanentes.

A indumentária das confrarias de forma geral e a das confrarias raianas em particular, possui características únicas que transformam os encontros de confrades em manifestações visuais agradáveis e cuja imagem constitui uma diferenciação de cada uma. Os desfiles que por norma acontecem durante os encontros, são manifestações públicas por norma bem acolhidas por todos e em que o vestuário de cada uma sobressai e transforma aqueles desfiles em imagens que nos ficam para o futuro.
Hoje, por vezes existem rivalidades mais marcantes entre aglomerados populacionais de idêntica nacionalidade do que entre os dum lado e doutro da tal linha a que se chamou fronteira.
As nossas terras embora para nós sejam as melhores do mundo, a verdade é que elas não possuem riquezas extraordinárias para além claro está, das suas gentes e do seu território e do que estas gentes e os seus antepassados construíram.
Por isso, deixemo-nos de vaidades bairristas e unamos todos os esforços com os nossos vizinhos por forma a tirarmos o maior proveito daquilo que temos e que mais ninguém tem tão bom como nós: Os nossos produtos, os nossos monumentos, a nossa história.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

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