Nos confins da Eternidade

António Emídio - Passeio pelo Côa - © Capeia Arraiana

Falas, silêncio, não te ouço, só me diriges silenciosas palavras, mas nada ainda se afastou da minha memória, vou sentar-me à janela onde entra a luz da Saudade.

Uma oração que mais parecia uma invocação da morte

Uma oração que mais parecia uma invocação da morte

Sentei-me, pela penumbra do corredor aproximavam-se passos, abriu-se a porta da sala, conheci essa lembrança! Trazia o rosário na mão, rosário de contas negras, rosário de esperança, rosário de sofrimento, chave do Céu. Sentou-se no canapé, fechou os olhos e rezou, não era cadáver nem fantasma, era Saudade.
Subir de escadas apressado, correr de gaiata, Primavera de corpo e alma, simbiose perfeita para amar e ser amada, atitude voluptuosa, tirou o vestido, o saiote branco, vestiu-se de desejo, pôs pó-de-arroz da cara, lábios pintados de sensualidade, saiu do quarto com o mesmo correr de gaiata, esperava-a o destino, ser noiva do desespero…
Da cozinha saía uma surda sinfonia de vozes, de tilintar de pratos e talheres, três mulheres executavam um bailado à volta da fogueira e do fogão de ferro. O jantar, à mortiça luz de um candeeiro eléctrico, foi precedido de uma oração que mais parecia uma invocação da morte.
Depois, esses serão dos confins do Outono foi passado à lareira olhando para as sombras da noite. Saí, desci as escadas, mas antes de apagar a luz da recordação olhei para uma enorme fotografia colocada na parede, era a fotografia da Eternidade.
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«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

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