E nós por cá?

César Cruz - Desassossego - Opinião © Capeia Arraiana

E nós por cá… Vivemos longe do mar. Vivemos longe de tudo… Vivemos, já não é mal… Não nos retirem o ar que respiramos pois com ele podemos gritar que algo está mal!

Idosos

No Sabugal 40 por cento da população tem mais de 65 anos (foto: D.R.)

Num concelho onde já se registam menos de 12 mil residentes, a taxa de crescimento média anual da população tem apresentado sistematicamente valores negativos. Os dados estatísticos apontam-nos para uma taxa de crescimento anual negativa, com valores próximos aos dois por cento. Em média temos perdido anualmente perto de duzentos residentes devido à mortalidade, à fraca natalidade, ao êxodo emigratório, à fraca atração imigratória e à incapacidade de fixação da população mais jovem. É verdade que é um fenómeno nacional. Mas o preocupante é que os valores são assustadoramente maiores entre nós. Assim encontramo-nos a perder anualmente, em média e face à população residente, o dobro da população da Beira Interior Norte e do próprio distrito da Guarda.
O concelho do Sabugal, onde os que têm mais de 65 anos representam 40 por cento do total da população, apresenta um índice assustador do índice de dependência total, face aos concelhos mais congéneres. Ou seja, em média o nosso concelho tem pouco mais do que um residente em idade ativa por cada idoso e por cada jovem com menos de 15 anos. Se considerarmos que no Sabugal a população residente ativa é de cerca de quatro mil pessoas, contabilizando a população empregada e desempregada, e que por cada cem residentes, com mais de 15 anos, só 32 se encontram empregadas, podemos constatar a falta de dinâmica e a inércia das políticas locais existentes no nosso espaço contextual.
Vale o peso da economia social e da administração local para a geração e a manutenção de população e de empregos, representando estes a maior parte da afetação da mão-de-obra laboral. Salvam-se algumas empresas locais, que com alguma criatividade, resiliência e adaptação têm conseguido manter-se entre nós.
Estes factos transcritos mais não são do que o rosto visível da situação nacional e local. Não nos podemos escudar com os fatores exógenos, externos. A endogenia, ou seja o que de dentro diz respeito, os problemas reais do nosso concelho aos quais podemos dar uma resposta, carecem de uma efetiva análise e de resposta. A gestão da causa pública como instrumentalização e implantação de obrigações de vassalagem e de obediência é impeditiva para a autonomização e desenvolvimento do nosso concelho. O espaço deixado aos empresários privados ou ao terceiro sector é reduzido, na medida em que as políticas públicas são direcionadas para uma classe segmentada e direcionada ideologicamente e que exige favorecimentos legalmente protegidos e instituídos. O retorno do investimento público acaba por ser focalizado e centralizado em indivíduos, sendo que os projetos individuais acabam por morrer sufocados e sem esperança de serem incentivados e reconhecidos pela causa pública como meritórios. Aliás a meritocracia, entre nós, é indigente.
Pese a boa intenção de se querer seguir um programa de investimento público em projetos emanados dos fundos da Europa, não se pode coartar a iniciativa e o querer de privados. Aliás, a aplicação de iniciativas resultantes, e muito bem, de estudos sustentados, só poderá ter sucesso se subsistir com uma autêntica e efetiva política local sustentável que vá ao encontro das pessoas e das suas necessidades. Para isso o poder público não poderá chamar só a si, e aos que lhe interessa, ao palco da decisão. Os atores terão de ser diversificados. Aguardamos o cumprimento de um conjunto de projetos aprovados e que são de todos nós, resultantes de uma obrigação emanada de um estudo concelhio. Que se cumpram pois e que não assumam o rosto de projetos falhados do passado e que ainda aguardam explicação e responsabilização. Aguardemos pois!

Fontes:
1. Números dos municípios e regiões de Portugal, quadro resumo do Sabugal, da Fundação Francisco Manuel dos Santos;
2. Síntese Estatística do concelho do Sabugal, do Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia.

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«Desassossego», opinião de César Cruz

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