O Mito do Contrabando 3

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Todas as terras da raia faziam contrabando semelhante àquele a que a maioria dos quadrazenhos se dedicava. A diferença é que era em maior quantidade em Quadrazais porque Quadrazais era a freguesia com maior população, por vezes suplantada pelo Soito.

Quadrazais

Quadrazais

Com um pouco de esforço, seguindo rua a rua, consigo chegar ao número de pessoas individualizadas que não se dedicavam ao contrabando em 1950, ano em que a população era de 2.720 habitantes, ano em que eu tinha a idade de sete anos, embora possa ter algumas falhas sobre o número de familiares ou omissões de famílias, de que peço desculpa. Apresento-as pelo nome por que eram conhecidas em Quadrazais, colocando entre parêntesis o número de pessoas que viviam nessa data em sua casa (casal, filhos ainda solteiros e outros familiares a seu cargo), que poderiam ter vivido do contrabando ou até poderiam mais tarde vir a viver dele. Assim (continuação do artigo anterior):
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Pelo exposto se conclui que:
1- Foram analisadas 401 famílias representativas de 1.444 pessoas, número correspondente a um pouco mais de metade dos 2.720 habitantes, mais propriamente o equivalente a 53,09% da população. Se, porém, tivermos em conta que nos 2.720 estão, certamente, incluídos uns 400 do Ozendo, ficaríamos com 2.320. Os 1.444 analisados seriam 62,24% do total, amostra já significativa. Estou certo que não esqueci mais que 20 famílias. O que pode explicar a grande diferença entre os 2.320 habitantes e os 1.444 analisados deve ser um grande número de crianças até 5 anos, que na minha idade de 7 anos não fixei. Poderemos juntar mais umas 200 pessoas (uma por cada metade das famílias analisadas). Teríamos então 1.644 pessoas, que representariam 70,86% do total. Posso admitir que não contei com umas 50 pessoas idosas a viver com os filhos. Assim, teríamos 1.694, o que equivaleria a 73,02% do total.

2- Tomando em consideração apenas as 1.444, teríamos 1.097 pessoas que não se dedicavam ao contrabando contra 347 que viviam no todo ou em parte do contrabando (incluindo neste número todos os que não é seguro que vivessem do contrabando, que coloquei na rubrica “talvez”), obtendo a percentagem de 75,97% dos “não” contra 24,03% dos “sim”, percentagem aproximada do que considero ter sido a realidade de Quadrazais em 1950 no que respeita ao contrabando.
Claro que se considerássemos mais 250 pessoas que não viviam do contrabando (200 crianças e 50 velhos), a percentagem do “não” seria de 1.347 sobre 1694, o que daria a percentagem de 79,52% de “nãos”.

3- As pessoas que viviam especialmente ou só do contrabando seriam apenas 126 (97+29), equivalendo a 8,73% dos analisados. Os alugados seriam 117, equivalendo a 8,10%. Os 104 (34+70) que faziam pequeno comércio de produtos espanhóis representariam apenas 7,20% do total. Note-se que, antes de elaborar este quadro exaustivo, já indicava 146 negociantes, mais 100 alugados e mais 100 crianças que faziam pequeno comércio, num total 346. Depois de preencher o quadro, chego a 147. É significativa a credulidade que deve ser atribuída aos números que apresento.

4- Antes da análise pormenorizada, eu havia indicado 1.237 pessoas que não viviam do contrabando contra 347 após a análise (a que devemos juntar a diferença de 2.320 e 1.444=876. O total seria de 1.223 ( 347+876). Como podem ver, há apenas uma diferença de 14.

5- A afirmação normalmente usada por muitos quadrazenhos ao dizerem que quase todos os quadrazenhos se dedicavam ao contrabando (aí uns 95%) e a de J. Manuel Correia (50% ou mais), provavelmente refere-se sobretudo aos homens alugados ou agindo por conta própria. Aí, expurgando os homens adultos que não contrabandeavam (266), dos que contrabandeavam (240), teríamos, mesmo assim, num total de 506 adultos, 52,57% dos ”não”, contra 47,43% dos “sim”.

Conclusão
Seja qual for o método seguido ou a amostra utilizada, é um exagero dizer que ”quase todos ou mais de metade dos quadrazenhos” se dedicava ao contrabando.
Fica aqui demonstrado que apenas cerca de 25% dois quadrazenhos vivia dos proveitos obtidos na actividade do contrabando.
Só no caso de se tomar em conta apenas os homens adultos, se poderá dizer que “quase metade” dos quadrazenhos se dedicava ao contrabando. Mas esse ponto de vista é incorrecto, porquanto continua a ficar na mente que quase metade dos quadrazenhos vivia do contrabando, quando sabemos que muitos desses contrabandistas só recebiam uma parte do contrabando, recebendo outro tanto ou mais do trabalho por conta própria ou por conta doutrem no trabalho do campo. As suas mulheres também contribuíam com o seu salário e trabalho em terrenos próprios. Infelizmente, uma boa parte dos que contrabandeavam acabava por perder mais do que o que recebia, se tivermos em conta os carregos apanhados pela Guarda Fiscal, o tempo que passavam em prisões, mortes em Espanha e na raia, despesas para saírem das cadeias, para além dos gastos com médicos e remédios para curar doenças apanhadas por essas serras, ora com calores excessivos, ora com frios destemperados.
Acabe-se, pois, de uma vez por todas com o mito do “quadrazenho = contrabandista”.
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«Lembrando o que é nosso», por Franklim Costa Braga

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