Jogo do empurra

César Cruz - Desassossego - Opinião © Capeia Arraiana

Existem eufemismos para os agentes responsáveis se demitirem de funções que deveriam ser suas. Ou por falta de capacidade ou por falta de soluções, o jogo do empurra tem sido utilizado de tal forma que já quase todos dizemos que não há deliberações possíveis. De tanto nos baterem será que nos habituámos? Ao passar a responsabilização para o indivíduo e para a sua incapacidade de ser empreendedor, as políticas nacionais e locais ganham espaço de alívio. Afinal a culpa não morre solteira. A culpa, afinal, é mesmo dos outros, bem, pelo menos de alguns…

Este jogo do empurra, além de incoerente, encontra-se viciado

Este jogo do empurra, além de incoerente, encontra-se viciado

O jogo do empurra empurrou-nos até aqui. Empurra daqui e dali, o nosso estado social foi decaindo. A culpa morre solteira. Chegados ao firmamento do limbo, a falha é atribuída à irresponsabilidade pessoal, própria de cada um. A responsabilidade social das instituições políticas e públicas é transferida para uma alegada irresponsabilidade individual. Esta ideologia, fomentada pela governabilidade dos últimos anos, contribuiu para a solidificação da conceção onde indivíduo é constituído como o único interesse e o coletivo é um empecilho. A transferência das questões sociais, suscitadas pela modernidade, para cada ser individualizado, mais não é do que a apropriação da mercantilização sobre a pessoa. Assim surge este jogo do empurra. As instituições políticas democratas demoraram anos a verem reconhecidos os seus propósitos e agora elas próprias, esquecendo as suas origens, maltrapilham os movimentos sociais que lhes deram origem. O surgimento de um pseudo-empreendedorismo social resulta deste movimento neoliberal. Empreendedorismo é um eufemismo para a demissão e irresponsabilização de quem tem obrigação de intervir politicamente. A responsabilidade deixa de ser do Estado ou da governamentação local para ser atribuída à incapacidade de cada um. Ou seja, se alguém passa por dificuldades é porque não tem capacidade de ser empreendedor. Assim surge uma demissão da responsabilização. A culpa torna-se reflexiva, individualizada. E este jogo do empurra, além de incoerente, encontra-se viciado. Essencialmente para se ser empreendedor não basta ter boas ideias e iniciativa. Precisa de saber esticar bons tapetes, participar em lautos banquetes e estar comprometido com quem lhe dá a mão. Não será assim? Afinal não é verdade que entre nós a informação privilegiada se encontra apenas nas mãos de alguns? E os lobies desta informação resultam em produção de empreendedorismo nacional e não só… Podemos dizer que existe um frango disponível para quem o apanhar mas decerto que se alguém souber onde ele está, esse encontra-se numa situação mais favorável de o capturar primeiro. É o empreendedorismo no seu melhor. E quanto custa essa informação? Quanto custaram, até aqui, as informações privilegiadas, lugares fixos e lugares cativos? Quantos vinténs custam uma alma presa a uma informação privilegiada? E porque é que não é considerado crime punível o monopólio de tal subterfúgio? Não vale a pena esconder a verdade. A informação privilegiada tem cores e amizades. Quanto mais coloridas são as pessoas, mais acedem a ações empreendedoras. Enquanto uns trabalham às escuras, outros, iluminados, vagueiam por aí, revelando a sua imensa capacidade de serem bons empreendedores… de informação classificada e quase-confidencial!
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«Desassossego», opinião de César Cruz

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