Conto de Natal

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CASTELEIRO :: :: Não fosse o farto madeiro que ocupava o centro da praça do Casteleiro a arredar para bem longe mesmo os mais friorentos, a meteorologia da noite em nada fazia crer que estávamos em plena Noite de Natal.

Madeiro de Natal - Casteleiro - Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana

Madeiro de Natal 2015 no Casteleiro sob a sábia orientação do B.A.

António e Céu, irmãos de várias décadas, cruzavam estórias de vidas muitas vezes condimentadas por tempos difíceis mas, segundo eles, de uma grande dimensão humana.
António de parcas falas, ao contrário da irmã, nessa noite não se calava! Costas corcovadas, marcas de uma emigração sofrida, esfregava as mãos como se de frio se tratasse, repetindo vezes sem conta: «Eh pá, antigamente as pessoas eram mais sérias, mais amigas umas das outras; cá na terra toda a gente se ajudava uns aos outros. Hoje há muita falsidade!»
Virando-se para mim, certificando-se de que estava atento à conversa, disse «Ó Céu lembras-te quando o ti Eiras (senhor querido do Vale da Senhora da Póvoa) quis fazer a casa? Como no Vale não havia pedra (granito) boa, não houve ganhão cá do povo que não fosse a acarretar pedra, generosamente, do Casteleiro para o Vale. O ti Eiras (mesmo boa pessoa!) para que nada faltasse aos ganhões – cada um comia e bebia o que queria – colocou um pipo de vinho e um cesto de filhoses a meio do caminho (chafariz dos Mourinhas) e outro à chegada, já em pleno Vale. Depois de descarregada a pedra, era a vez das vacas … comiam o feno que queriam!» Mas Céu, que não era mulher de estar calada, e já muito entusiasmada com o agradável serão, interrompeu: «Ó Tó, e quando algum ganhão tinha uma vaca doente?!… Bastava bater à porta do vizinho, e contar-lhe a mágoa. Fosse a Marreca, ou a Borisca, a resposta não tardaria: em vez de uma, levas as duas… deixa lá, hoje tu, amanhã eu!» António, bem conhecedor do que falava, ia acenando com a cabeça, sinal de que estava a beber, palavra a palavra, recuando nos anos, nos espaços… nas vivências, «aquilo é que eram tempos! Olha que para se fazer um negócio não era preciso ter o dinheiro à vista – bastava a palavra dada, aquilo era uma escritura, hoje?!…»
Enquanto estas estórias se multiplicavam a uma velocidade incrível, numa noite sem igual, o mais pequeno da casa exercitava tentativas à volta de uma caixa de legos, acabadinha de receber, dando assim corpo a um bonito carro dos bombeiros que, uma vez concluído fez a sua delícia o resto da noite.
Entretanto, António e Céu, belíssimos contadores de histórias de tempos idos, à medida que a noite avançava iam perdendo fôlego deixando cair, de vez em quando, um pestanejar de olhos notoriamente adormecidos…
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«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

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