Quando é Natal arma-se uma barraca

César Cruz - Desassossego - Opinião © Capeia Arraiana

Quando ligamos a televisão sabemos que é Natal. Porquê? Porque vemos lindas imagens frias e sem existência junto a tendas despidas de gente sem vida. Armam-se barracas mas destrói-se o espírito do Natal. Dar vida a quem a não tem…

Natal - Capeia Arraiana

Natal

Quando chega o Natal armam-se tendas e enfeites. Aliás, arma-se a barraca. Engalanada, com focos e luzinhas. Valendo a contenção de despesas, com o uso moderado de bom senso, impera, no entanto, o sentimento de que a construção de ideias para o futuro depende de barracas montadas ao ar e à chuva. Vale uma ida às televisões e aos noticiários. Ainda bem que as visitas ao menino Jesus são passageiras e direcionadas às singelas e bonitas figuras natalícias. Não fosse isso podiam descobrir que, afinal, o nosso presépio é apenas uma imagem linda de um Natal que não existe no dia-a-dia para as gentes que por aqui vivem. Aliás, nascer, crescer ou viver nesta Belém despovoada não dá direito a prendas de magos do oriente. Antes pelo contrário. As caravanas passam, ao longe… Os magos fazem números, de magia… e o menino Jesus, se nasce nestas bandas, está tramado, nem vai ter direito ao abono de família. A eletricidade podia ser mais barata, os impostos mais acessíveis, as políticas locais mais dinamizadoras, as associações de desenvolvimento mais de desenvolvimento e não instrumentalizadas. Mas falemos baixinho, ou ainda dizem que o menino Jesus será comunista. E porque não?
Neste presépio de Natal faltam imagens. Faltam os rostos dos que tiveram de sair de mala na mão. Faltam os rostos das crianças e dos jovens que não nasceram! Aqui faltam também os que tiveram de procurar oportunidades noutros presépios por aí espalhados. Neste presépio de Natal faltam as imagens vivas. Falta quem possa ver as imagens de barro, geladas, à espera de vida. Os pastores sem ovelhas e ovelhas sem pastores. Só espero que a estrela do oriente não se engane no caminho. Que venha esta estrela. Que aponte a direção e que haja quem a saiba seguir.
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«Desassossego», opinião de César Cruz

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