Quem se lembra do santoro?

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CASTELEIRO :: :: Num tempo já longínquo, mas que interessa trazer aqui para conhecimento dos mais novos, o dia 1 de novembro – DIA DE TODOS OS SANTOS – era também o dia de «pedir o santoro».

Torre da igreja do Casteleiro

Torre da igreja do Casteleiro

A imponente torre da igreja do Casteleiro, fruto de uma saudável promessa do senhor Manuel Fortuna, em troca das pessoas do Casteleiro deixarem de passar numa vereda que atravessava a sua propriedade “o Alvarcão”, representava para toda a pequenada, a ambição de um dia a poder subir e repicar o sino, com mestria, num dia de festa ou mesmo na marcação do ritmo do compasso até ao cemitério.
Longe do simbolismo que o Dia dos Santos representava para os adultos, a garotada mal deixava a manhã anunciar-se lá para os lados da serra D’Opa, já se fazia sentir o seu barulho nas ruas, ainda povoadas, da aldeia. Do largo do Reduto à Carreirinha, da Estalagem ao Ribeirinho, de cestas de verga dependuradas nos tenros braços o João, a Rosa, a Fátima, o Manuel,… não deixavam passar uma porta que fosse sem bater, apelando ao dono “pode-me dar-me um santorinho”? Mas a sorte nem sempre era boa companheira. A debilidade económica da maior parte das famílias nem sempre permitia satisfazer o olhar, meigo e doce, desta trupe que, ano após ano, se regenerava de modo a prolongar a tradição.
Mas as cestas só ficavam completas com as dádivas, sempre desejadas, das famílias mais abastadas da aleia. Romãs, nozes, rebuçados e umas pequenas e raras moedas faziam as delícias dos gaiatos de então!
Com a manhã a meio e com esta tarefa concluída era tempo de, cada qual regressar a sua casa e, aí, arregalar bem os olhos para os manjares recolhidos e mais tarde fazer jus ao paladar.
Entretanto, bem do alto da torre, emergia a toada do sino, soberano chamamento para a missa dominical antecedendo, desta forma, o tradicional compasso até ao cemitério.

Nota:
1)
É de salientar que, desta aldeia de que vos falo, já ninguém pede o “santoro” há cerca de cinco décadas, perdendo-se assim esta tradição.
2) Atualmente, o dia 1 de novembro deixou de ser dia santo (de guarda) e já nem pelo calendário religioso é respeitado podendo este dia, Santo, ser lembrado a 31 de outubro, fazendo de conta que é 1 de novembro…

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«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

2 Responses to Quem se lembra do santoro?

  1. António Alves Fernandes diz:

    Na Bismula, o santoro era um pão especial que os padrinhos davam aos seus afilhados, no Dia de Todos os Santos. Apreciei esta lembrança.

  2. Joaquim Luís Gouveia diz:

    Bem lembrado, amigo António Fernandes!

    Sem dúvida que, no Casteleiro, os padrinhos também davam aos afilhados um pão especial, designado por “bica” – massa de trigo esticada e pincelada com azeite; um sabor inigualável!
    É curioso que, embora a tradição de oferta da “bica” aos afilhados já se tenha perdido, persiste ainda o hábito das padarias que fornecem o pão ao Casteleiro, nesta época, continuarem a fazer este pão especial, continuando a ter muita procura da população residente.

    Abraço

    JGouveia

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