O forcão em Zaragoza

Paulo Leitão Batista - Contraponto - © Capeia Arraiana (orelha)

Um grupo de pegadores de forcão foi a Zaragoza, Espanha, exibir a tradição taurina da raia sabugalense esperando um «toro de fuego» na famosíssima Feria del Pilar, o que proporcionou alguma polémica nas redes sociais.

Um «toro de fuego» investe no forcão

Um «toro de fuego» investe no forcão

Sou dos que defendem que é positiva a exibição do forcão fora do concelho, na perspectiva de divulgar o que é nosso em termos de tradição popular. Porém entendo que isso se deve realizar dentro de regras, dentre as quais a de salvaguardar o essencial daquilo que se faz nas nossas terras. Sou desse modo levado a crer que a actuação do forcão perante um touro com os chifres a arder, por mais espectacular que seja, não é uma iniciativa merecedora de aplauso, ainda que a intenção dos que a protagonizaram fosse a melhor.
A Capeia evoluiu significativamente em termos de humanização, erradicando a violência gratuita que noutros tempos se abatia sobre o animal. Joaquim Manuel Correia, deu conta dessa agressividade no livro «Terras de Riba Côa – Memórias sobre o concelho do Sabugal» ao descrever uma capeia a que assistiu na Nave: «Os 2 do garrochão, armados de grossos paus com longas choupas, defendem-se das investidas do touro, cravando-lhe os ferros dos garrochões ao mesmo tempo que os das varas ou garrochas o distraem (…)». Também Abel Botelho, no livro «Mulheres da Beira», conta uma corrida de touros no Sabugal onde a violência sobre o animal é de tal forma intensa que o leva a concluir que, dentre os que se envolviam no espectáculo, o boi era o único que estava no seu perfeito juízo.
As tochas que ardem nas hastes dos «toros de fuego» são polémicas em Espanha, pois assustam os animais e provocam-lhes queimaduras no corpo e nos olhos. A capeia, enquanto manifestação popular que vive da espectacularidade, dispensa, bem o sabemos, este tipo de condimento.
Por outro lado, em contraponto aos que defendem a exibição do forcão noutras terras, há quem não concorde com essa prática, por considerar que a descontextualização desvirtua a tradição e desmerece o espectáculo. Nessa concepção, a capeia deve manter-se nos seus locais de origem, e quem a quiser apreciar terá que vir às terras do forcão.
Uns e outros terão razão, porque ambas as posições são legítimas e há argumentos que as sustentam, mas a verdade é que a polémica agora levantada faz valer a urgência da realização de algo que se tornou absolutamente necessário: o Congresso da Capeia Arraiana. É nesse fórum que os organizadores das capeias, pegadores de forcão, ganadeiros, jornalistas, autarcas, historiadores e demais interessados, poderão analisar e discutir o que mais importa ao futuro da tradição.
Cabe à Câmara Municipal do Sabugal, que patrocinou a ida do forcão a Zaragoza, tomar a iniciativa e criar as condições para se fazer esse debate.
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«Contraponto», opinião de Paulo Leitão Batista

leitaobatista@gmail.com

7 Responses to O forcão em Zaragoza

  1. Felisberto Gomes diz:

    Quem brinca com o fogo, por norma sai chamuscado, o que não será este caso, dado que se terá passado de uma brincadeira, mas quem tanto lutou para que a capeia raiana fosse considerada Património imaterial raiano, por este andar começa a desvirtuar-se; se é património da raia, é lá que tem de visitar-se;

  2. Silvestre Rito diz:

    Concordo em teoria com a não exibição do forcão nestas condições, mas, também não deixa de ser verdade que se excluirmos muitos costumes e tradições de outras terras podemos limitar de forma significativa a divulgação e expansão da nossa tradição.
    Só de pensar que hoje o forcão símbolo maior da capeia raiana, é exibido a cerca de 700Km, do nosso concelho, julgo que era uma coisa inimaginável há 10 ou 15 anos para não dizer mais.
    Não deixa de ser verdade que esta tradição , tanto quanto eu sei não tem regras escritas, ou seja não há regulamentação que possa determinar os limites em que a tradição é inserida; como tal há que reunir o dito congresso e entre outras coisas e antes que apareçam mais casos polémicos, definir até onde é ou não permitida determinada exibição desta tradição.
    Isto se a quisermos manter viva , expandir , consolidar e poder inclusive torna-la uma atracção turistica, com benefícios para o concelho e as suas gentes.

  3. António Emídio diz:

    Amigo Leitão :

    A crueldade sobre os touros, em Espanha, está na ordem do dia, o jornal El País, de uma grande projecção europeia, e até mundial, tem criticado essas práticas medievais, entre elas o Toro de La Veja e o Toro de Fuego. Esperemos que a Idade Média não regresse também às nossas terras, porque a coisa que o Homem assimila mais rápida e facilmente é o mal.

    António Emídio

  4. Helder diz:

    Concordo consigo PLB

  5. Ramiro Matos diz:

    Paulo
    Concordo totalmente com o que dizes e da forma que o dizes.
    As exibições de demonstração da nossa tradição popular taurina, seja onde forem, são uma coisa boa, mas deve obedecer às nossas regras.
    Mesmo que estas não estejam escritas, todos os raianos as conhecem. E não me parece que lidar um touro em chamas com o forcão seja uma das regras.
    Era o mesmo de os aficionados de Zaragoça viessem à raia mostrar a sua tradição de “toro de fuego” e lhes impuséssemos que o touro fosse toureado sem o “fuego”.
    Não percebi quem organizou esta ida a Zaragoça, mas se a Câmara patrocinou, esta é conivente com o que aconteceu… E fica mal na fotografia…

  6. jclages diz:

    Os «inteligentes» ainda não perceberam bem o perigo que corre a Capeia Arraiana quando aparece ligada a touradas de gente doida e estúpida como é caso do touro com os cornos em fogo.
    Alguns teimam em estragar as tentativas de mostrar que a Capeia é uma tradição ancestral (reconhecida – e protegida – como tal em Portugal), não faz mal aos toiros e é diferente.
    Neste caso em Zaragoza foi diferente… mas para pior.

    Aqui deixo uma mensagem do PAN-Partido dos Animais (que até conseguiu eleger um deputado) para todos reflectirmos:

    PAN

  7. arraiano diz:

    Acho bem que acabem com os subsídios, sendo eu arraiano e mordomo de diversas capeias nunca precisei de subsidio algum para as organizar… E não é isso que vai alterar alguma coisa à tradição das poucas aldeias que ainda mantém viva a tradição. Vejo muitos opinadores por aí que nunca pegaram um forcão ou nunca contribuiram para o sustento das mesmas, isso de ser património não sei do quê é uma treta, porque são os aficionados das 10 ou 12 aldeias seus habitantes e seus aficionados que a mantém viva e não a câmara do Sabugal ou outra instituição qualquer… balelas…

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