Ainda o dia a seguir às eleições

Fernando Lopes - A Quinta Quina - © Capeia Arraiana

Alguns apontamentos sobre a cena política.

Mais uma trapalhada do Presidente da República

Mais uma trapalhada do Presidente da República

1. O pós eleições era anunciado. Era previsível o cenário de não haver maioria absoluta de nenhuma força política. Dessa forma, são os acordos políticos que se conseguirem a estabelecer o jogo, isto é, a definir quem forma governo. Perante os resultados, em que uma força política não obtém maioria, sendo essa força a soma de um espectro político – a direita, formando-se na oposição o outro espectro – a esquerda, o resultado era óbvio. As movimentações que se seguiram (e se mantêm) são o resultado de mais uma trapalhada do Presidente da República. Andou a reflectir tanto, anunciando-o. Que já sabia o que ia fazer, apregoando-o e, até, prevendo-o, tal vidente! para, depois, dar nesta borrada!? Continua a ser claro que, deveria ter convocado todos os partidos com deputados eleitos e, depois, só depois, deveria convidar Passos Coelho a formar governo. Aqui, na minha perspectiva, Passos Coelho, para criar um compromisso de sustentabilidade de um governo minoritário, só poderia falar com o PS. Contudo, deveria formar governo. E aqui, o PS deveria expor à coligação quais eram as suas condições para se comprometer. Só então, se esse compromisso não fosse possível e não houvesse possibilidade de o governo continuar, o Presidente da República deveria convidar a outra força política mais votada a apresentar uma solução de governo. Se tal não fosse possível, restaria a convocação de eleições nos termos constitucionais.
Não me parece que haja outra solução que respeite o resultado das eleições.
Quanto a compromissos está tudo dito, e pelo próprio Passos Coelho, ele não governa com o programa do PS e… claro, este não se compromete apoiar um governo com um programa com o qual não concorda. Mais palavras para quê?

2. Os candidatos a Presidente da República vão-se chegando à frente. Esta semana foram dois pesos pesados. Marcelo Rebelo de Sousa e Maria de Belém. Quanto a Marcelo, a sua candidatura anunciada e mais que anunciada, faz-me lembrar a frase de um tal de Rangel na SIC, «quem vende sabonetes também vende presidentes» (cito de cor), parecendo uma candidatura da TVI. Tendo sido uma montra durante anos para o professor, também pode ser um senão: a imagem demasiado de comentador/figura televisiva e menos de estadista. Mas ganhou pontos. Antecipa-se a Rui Rio, condicionando-o, e encosta à parede Passos Coelho e Portas, que não o queriam como candidato da coligação. Maria de Belém parece querer marcar os mesmos pontos que Marcelo, condicionando outras candidaturas de nomes sonantes da esfera do PS. Interessante é que, na apresentação da candidatura, estavam muitos dos mesmos que estiveram na apresentação da candidatura de Sampaio da Nóvoa.
A reflexão sobre as candidaturas fica para outra altura. O que me importa é chamar atenção para um pormenor: ambos os partidos deram liberdade de voto aos seus militantes. Como se essa liberdade estivesse amarrada ao partido. Que o Partido obrigue à fidelidade cega os deputados, vá lá, agora os militantes e os simpatizantes em geral? Essa liberdade é-lhes intrínseca e constitucional. Portanto, essa da liberdade de voto é conversa fiada dos partidos para não terem que tomar partido por um ou outro candidato, com medo de ficarem mal na fotografia.
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«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com8

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