Toiros e democracia comunitária

Capeias Arraianas / Encerros - © Capeia Arraiana (orelha)

Luís Capucha é um dos grandes conhecedores das tauromaquias populares, incluindo a nossa capeia. No passado dia 8 de Agosto escreveu no seu blogue «Café Vila Franca» um texto com o título acima identificado, que transcrevemos.

Capeia na Lageosa

Capeia na Lageosa

«Gosto (…) de andar por sítios onde o toiro sai à rua e é lidado segundo as regras de cada terra. Não vou falar hoje dessas regras nem dos significados que encerram. Vou antes dar dois exemplos de como as tauromaquias populares têm um impacto que vai muito para lá dos aspetos estritamente taurinos, criando nas pessoas o hábito de cuidarem do que é seu, da herança cultural que receberam e do governo e gestão das festas que constituem a expressão maior da identidade das suas terras. Os dois casos são Barrancos e Lageosa da Raia.
Em ambos os casos as festas são organizadas por Comissões de Festas que mudam todos os anos.
Na Lageosa da Raia, concelho do Sabugal, há quatro mordomos (ou mordomas) para as festas, e dois para a capeia raiana, ou corrida do forcão. São eles que, também aqui, tratam de tudo: dos arraiais, da procissão, da organização da Capeia, etc. E também têm de garantir o sucesso da festa, porque a competição e a rivalidade entre as aldeias raianas daquela região é muito forte, e ninguém quer ficar por baixo.
O processo de escolha dos mordomos obedece a um sistema semelhante ao de Barrancos. Cada Mordomo que vai sair nomeia quem o substitua. Os nomes dos candidatos são também anunciados na Igreja, no dia da procissão (que antecede o dia da capeia, não obstante os jovens se prepararem para os desafios do dia seguinte desfilando em ordem militar com as suas lanças e alabastros em riste e a passo certo). Pela tarde, a banda da música (este ano a banda veio de Pinhel), acompanhada pelo Mordomos e inúmeros populares – eu andei lá misturado – que vão a casa de cada um dos nomeados. Se ele aceita a responsabilidade, vem à porta da casa receber quem chega e convida toda a gente para comer e beber no quintal. Porém, este ano o cortejo foi bater a um designado que «fugiu», não estava em casa. Uma «vergonhosa» fuga às responsabilidades. Ficaram os outros três e, logo ali na casa de um deles, um outro cidadão da Lageosa se ofereceu. Lançaram-se foguetes e parece que a alegria foi ainda maior. Para o ano vamos ter outra vez festa brava, rija e muito divertida entre gente que sabe receber os visitantes (como também acontece em Barrancos, como todos sabemos bem).
Não há Câmara Municipal nem Junta de Freguesia metidas no processo ou sequer presentes. E vão ser os mordomos(as), quase sempre residindo longe, no estrangeiro ou na região de Lisboa, que se encarregarão do pesado fardo de organizar as festas, implique isso os esforços que implicar.
Dito isto, de onde vem o título deste «post»? Fiz umas contas: ao fim de, por exemplo, 20 anos, 100 jovens de Barrancos 120 da Lageosa, conhecem a fundo a sua festa. Sentem-se parte de uma corrente que passou por eles. Participam ativamente, por nomeação democrática, naquilo que a comunidade tem de mais valioso: as festas em honra dos seus Padroeiros. Em pouco anos ninguém, ou pelo menos nenhuma família (ela é um apoio fundamental), fica de fora da responsabilidade de aprender a cuidar e a defender o que é seu. Não é o «seu» egoísta. Pelo contrário, é o seu altruísta e solidário. Que resulta de uma forma de organização política da comunidade baseada na participação democrática de todos os membro naquilo que há de mais importante na vida dessa comunidade.

Só uma nota de rodapé: o meu filho Frederico cresceu muito este Verão. Primeiro «pegou ao forcão» na Lageosa da Raia, quando soltaram uma bezerra para os jovens. Uma prática que assegura o futuro da Festa. Depois fomos para o campo ver passar os toiros no «desencerro». Só que um ficou para trás. Fomos obrigados a fugir para cima de um muro que mediria de altura, no máximo, 1,10 metros. E o toiro resolveu vir cumprimentar-nos. Gritei ao Frederico: não te mexas! Ele ficou quieto, com o toiro a olhar para ele a menos de 0,5 metros. Depois o morlaco lá se virou e encostou o rabo ao sítio onde eu estava, também, imóvel. Passavam os cavaleiros e o toiro nada… atiravam-lhe paus e outros objetos para o fazer sair dali, mas ele…nada. O Frederico perguntou-me baixinho se podia descer do muro, para o lado de trás. Que sim, mas sem muito espalhafato, disse eu. Até que, para aí 10 minutos depois, apareceu alguém com uma garrocha, e picou o toiro, que saiu do conforto da nossa companhia e foi pelo caminho errado de volta à aldeia. O Frederico e eu respirámos fundo. Ele comentou: «Pai, já apalpei, e não me borrei.» Foi um valente!
Luís Capucha

(Leia este e outros artigo no blogue Café Vila Franca – aqui)

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