No centenário do nascimento de João António Nabais

Adérito Tavares - Na Raia da Memória - © Capeia Arraiana (orelha)

Entre os meus conterrâneos, o Dr. João António Nabais foi um dos mais notáveis. Os mais velhos lembram-se bem dele, da sua personalidade enérgica e empreendedora, do seu amor por Aldeia do Bispo e pelas suas gentes. As palavras que se seguem destinam-se, principalmente, aos mais novos, para que saibam um pouco mais acerca do «senhor que tem um busto de bronze no jardim do Lar de Santo Antão*».

Busto de bronze do Dr. Nabais existente no jardim do Lar de Santo Antão, em Aldeia do Bispo. Ao fundo, as instalações do Lar. No Colégio Vasco da Gama existe outro busto igual. Foram ambos obra do escultor João Barata Feyo.

Busto de bronze do Dr. Nabais existente no jardim do Lar de Santo Antão, em Aldeia do Bispo. Ao fundo, as instalações do Lar. No Colégio Vasco da Gama existe outro busto igual. Foram ambos obra do escultor João Barata Feyo.

Filho do sr. José Maria Nabais e da sra. D. Amélia de Jesus Simão, João António Nabais era o mais velho de sete irmãos. Dotado de uma extraordinária inteligência e de uma excepcional capacidade de trabalho, frequentou os seminários da diocese de Évora, onde foi ordenado sacerdote, em 1938. Em 28 de Agosto do mesmo ano celebrou a sua «Missa Nova» em Aldeia do Bispo.
Numa época tão carenciada de pessoas efectivamente preparadas no domínio das ciências da educação, o Dr. João Nabais constituía uma das raras excepções. À solidez da sua formação psico-pedagógica, adquirida na Universidade de Lovaina, na Bélgica, seguiram-se anos de frutuosa experiência como pároco e professor em Elvas e, depois, como vice-reitor do Seminário de Évora, entre 1948 e 1952.
Foram extraordinariamente relevantes as obras de restauro e modernização do velho edifício seiscentista do Seminário promovidas pelo Dr. João Nabais. Procedeu, igualmente, a uma profunda renovação pedagógica. Todavia, ao alterar as condições de admissão e de frequência dos seminários da Diocese, através da aplicação de testes vocacionais, desencadeou algumas resistências. Em 1951, o Dr. Nabais apresentou os resultados da sua experiência num trabalho intitulado «Contribuição da Psicologia moderna e da Pedagogia experimental para a selecção e orientação das vocações sacerdotais». Apesar de, em Outubro de 1951, ter sido elevado à condição de cónego, a celeuma provocada pela sua actuação enquanto Vice-Reitor acabaria por afastá-lo da hierarquia e, posteriormente, da própria vida sacerdotal.

O Dr. João António Nabais (ainda sacerdote) com alguns dos primeiros alunos do Colégio Vasco da Gama, por si fundado em 1959

O Dr. João António Nabais (ainda sacerdote) com alguns dos primeiros alunos do Colégio Vasco da Gama, por si fundado em 1959

À competência e ao empenho com que exerceu funções eclesiásticas juntou depois, na vida laica, um grande dinamismo, traduzido na fundação de um Centro de Orientação Escolar e Profissional, no lançamento da revista Cadernos de Pedagogia e Psicologia e na publicação de várias obras de divulgação das novas metodologias de ensino, sobretudo no domínio das matemáticas. Foi verdadeiramente pioneiro na introdução entre nós do Método Cuisenaire, que propunha uma aprendizagem proactiva e lúdica da Matemática. Durante quase trinta anos, o Dr. Nabais calcorreou o país como orientador-dinamizador de incontáveis sessões de formação de professores. Nos últimos anos da sua vida, centrou as suas investigações na área da educação sexual, tendo publicado, em 1986, o livro Para uma Pedagogia da Educação Sexual.
No final da década de 50, na sequência das actividades que desenvolvia no domínio da orientação vocacional, o Dr. João António Nabais decidiu fundar um colégio destinado à recuperação de casos de insucesso e desajustamento escolar, familiar e educacional. Foi assim que surgiu, em 1959-60, no belo Solar das Tílias, em Meleças (Sintra), o Colégio Vasco da Gama. Frequentavam-no, no ano de abertura, apenas 48 alunos. De então em diante não mais parou de crescer e de se aperfeiçoar, tornando-se uma escola pioneira nos domínios da inovação pedagógica e das novas tecnologias da Educação. Para o Dr. Nabais, o Colégio Vasco da Gama foi a obra da sua vida**.
Os dois anos em que trabalhei com ele, no Colégio Vasco da Gama, foram de proveitosa aprendizagem profissional e de aquisição de experiência humana. A personalidade forte do Dr. Nabais exigia dos que ali trabalhavam um devotamento quase absoluto. Era um homem exigente consigo próprio e com os outros.
Se o Colégio Vasco da Gama era a «menina dos olhos» do Dr. Nabais, a sua outra grande paixão era Aldeia do Bispo. Foi essa paixão que o levou a colocar alguma da sua prodigiosa energia, dos seus conhecimentos e até muito do seu dinheiro pessoal ao serviço de Aldeia do Bispo. Aqueles que com ele trabalharam nos tempos épicos do planeamento e da execução das obras de restauro da igreja matriz de São Miguel (1975-77), da fundação do Lar de Santo Antão (1982-83) e da construção da piscina, sabem como ele era persistente, dotado de uma tenacidade a raiar a teimosia, mas também devotado de alma e coração à sua terra.

Folha informativa sobre o Lar de Santo Antão (n.º 4, de Agosto de 1982). Foi mais uma iniciativa do Dr. Nabais, com vista ao acompanhamento e prestação de contas desta obra

Folha informativa sobre o Lar de Santo Antão (n.º 4, de Agosto de 1982). Foi mais uma iniciativa do Dr. Nabais, com vista ao acompanhamento e prestação de contas desta obra

É evidente que o Lar de Santo Antão (tal como outras obras) não resultou apenas da acção do Dr. Nabais. Todos sabemos que muitos outros contribuiram com o seu esforço, o seu apoio, o seu dinheiro ou o seu trabalho. Mas o grande impulsionador, a «alma mater» – ninguém o discute – foi o Dr. João Nabais.
Os resultados estão à vista: poucas devem ser as pequenas povoações do país com equipamentos sociais desta qualidade. Basta consultar os dados do último recenseamento geral da população, feito em 2011, para se constatar uma realidade que o Dr. Nabais previra há muito: o envelhecimento da população das aldeias raianas é hoje dramático. Um lar para a terceira idade era, portanto, uma necessidade imperiosa. Agora que ele existe, achamos natural que exista. E se não existisse?
Costuma dizer-se que «santos da porta não fazem milagres». Nem sempre assim é. Às vezes, mesmo não sendo santos, fazem-nos. Quando são homens daquela têmpera, revolvem montes e vales, ultrapassam dificuldades, arregimentam boas-vontades, convencem os indecisos, desprezam os insultos, não escutam os «velhos do Restelo» e atingem os seus propósitos. E o Dr. Nabais foi um desses homens que nascem para liderar e para realizar. Era um criativo. Claro que tinha defeitos. Mas quem os não tem?

Número 1 do “Laje da Lancha”, fundado em 1975 pelo Dr. João Nabais. Depois do seu falecimento, a publicação deste boletim informativo sobre Aldeia do Bispo foi retomada pelo seu irmão Justo Nabais

Número 1 do “Laje da Lancha”, fundado em 1975 pelo Dr. João Nabais. Depois do seu falecimento, a publicação deste boletim informativo sobre Aldeia do Bispo foi retomada pelo seu irmão Justo Nabais

Em 1975, o Dr. Nabais deu início à publicação de um pequeno boletim informativo sobre Aldeia do Bispo, intitulado «Laje da Lancha» (para os que não conhecem a terra: trata-se de um afloramento granítico situado à entrada da povoação, para quem vem de Aldeia Velha, onde antigamente se faziam as malhas). Este Boletim, sem periodicidade certa e de distribuição gratuita (no qual tive a honra de colaborar), foi um precioso meio informativo para toda a comunidade bispense. Depois da morte do Dr. Nabais, o seu irmão Justo Nabais retomou esporadicamente a publicação do «Laje da Lancha».
O Dr. João António Nabais morreu em 1990, quando muito tinha ainda para nos dar. As gentes são por demasiadas vezes demasiado ingratas. Devíamos escutar a poetisa galega Rosalía de Castro quando diz «Quiero mis flores antes de mi funeral». Felizmente, porém, Aldeia do Bispo já homenageou o Dr. João Nabais de duas maneiras: com a inauguração do seu busto no jardim do Lar de Santo Antão e com a atribuição do seu nome à rua onde se situa o Lar, por decisão da Junta de Freguesia. As palavras que aqui deixo, no centenário do seu nascimento, constituem a minha modestíssima homenagem ao Dr. João Nabais.

* Em 2008 foram celebrados os 25 anos da fundação do Lar de Santo Antão, hoje propriedade do Centro Social e Paroquial de Nossa Senhora dos Milagres, que o “Capeia Arraiana” noticiou aqui.

** Aos leitores interessados em conhecer melhor a acção do Dr. Nabais na área educativa, recomendo a leitura da tese de mestrado de Maria Elisabete Gonçalves Lourenço Delgado intitulada “João Nabais: Sementes de Mudança”, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 2006 e disponível online aqui.
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«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

One Response to No centenário do nascimento de João António Nabais

  1. vitorino diz:

    Dr joao Nabais imventor e ensentivador dessa grandiosa obra que e o Lar merece ser reverenciado por todo povo de Aldeia do Bispo novos e idosos

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