Da importância da capeia arraiana

Ramiro Matos - Sabugal Melhor - © Capeia Arraiana (orelha)

Terá a Capeia Arraiana condições para integrar o processo de desenvolvimento do Concelho do Sabugal?

Capeia arraiana - um fenómeno cultural popular vivo

Capeia arraiana – um fenómeno cultural popular vivo

Esta questão era de forma clara colocada pelo Paulo Leitão, ao propor a realização de um Congresso, por ser «(…) de primordial importância a análise e discussão salutar do potencial da capeia enquanto motor dinamizador do nosso desenvolvimento».
Por outro lado, e de forma igualmente clara, o João Duarte dizia, em comentário à minha última crónica, que «A capeia arraiana deve ser encarada apenas enquanto fenómeno cultural popular enraizado na memória das populações das aldeias raianas, mas vivo – Para mim é só isto, porque sei bem (bem demais, até) que não é um produto turístico…»
Devo dizer que estou parcialmente de acordo com o Paulo e o João Duarte, mas também parcialmente em desacordo com os dois. E explico-me:
Estou de acordo com o João Duarte em considerar que a Capeia Arraiana é, na verdade, e tão somente, um fenómeno cultural popular vivo, no qual se revê grande parte da população raiana sabugalense.
Mas isso também é verdade para outros fenómenos de tauromaquia popular, desde o «toiro à corda» da Terceira nos Açores, à «chega de bois» em Montalegre ou em Vinhais.
E não me parece que qualquer uma destas manifestações tenha características tão diferentes da nossa Capeia, que lhes permitam ser também um produto turístico sem beliscar a tradição e o popular que as mesmas continuam a ter.
Por outro lado não posso deixar de apoiar a ideia do Paulo de realizar um encontro de interessados em discutir o futuro da Capeia, não só em termos da melhoria das condições em que hoje se realizam, mas também, enquanto momento de análise quanto ao papel deste fenómeno cultural nas estratégias de desenvolvimento do Concelho.
Mas também aqui, devo confessar que as minhas expectativas quanto ao contributo que a Capeia possa dar são cada vez mais escassas, o que não quer dizer que não lhe reconheço potencialidades para tal.
Permito-me citar aqui, como base para o que escreverei a seguir, Marcelo Ribeiro, professor da Universidade de Santa Cruz do Sul, Brasil, que em artigo publicado em 2004 dizia:
«As manifestações populares, sejam de cunho religioso ou não, possuem um caráter ideológico uma vez que comemorar é, antes de mais nada, conservar algo que ficou na memória coletiva. Para o turismo, como um sistema aberto, que se move pela oferta variada em determinados destinos, tais manifestações culturais podem formar parte de um produto, desde que sejam conectadas de forma direta ou complementar aos serviços turísticos.
O turismo a partir da sua implantação pode redefinir realidades sociais, criando expectativas a partir de imagens projetadas e adaptando as localidades a estas expectativas.
Neste contexto, as manifestações culturais correm o risco de sofrer mudanças quando tratadas de forma massiva, repetitiva e acatando o gosto do visitante.
A questão de aceitar tais mudanças encontra-se no processo de negociação e nos mecanismos que se empregam na preservação e na manutenção e que interesses estão em jogo para permitir e facilitar que se mudem desde as datas festivas aos rituais destas manifestações, a partir dos atores sociais envolvidos no processo.
»
Melhor era difícil dizer e cria as condições para na próxima crónica explicitar ainda melhor o que penso sobre o tema «Capeia Arraiana».

Ps1. Escrevo no final de mais um mês de Agosto, quando as nossas aldeias se enchem dos que partiram em busca de uma vida melhor.
Estou certo que os que vieram partem com mais ânimo para enfrentar mais um ano de trabalho.
E, estou certo, continuam disponíveis para contribuir para o progresso da sua terra.
Encontrar a forma de transformar esta vontade em atos concretos, eis o grande desafio que se coloca aos responsáveis políticos, em especial os autarcas…

Ps2. Ouço e deslumbro-me mais uma vez com um disco maravilhoso com música de jazz, blues e swing de New Orleans, editado em 2005 pela Putumayo, world music.
Comecei a ler, e recomendo vivamente, «Novelas Extravagantes» de Mário de Carvalho, mais um dos grandes escritores portugueses contemporâneos.

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«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

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