Mais uma vez o fogo chegou ao Casteleiro

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CASTELEIRO :: :: Foi exatamente como há quarenta anos! Impiedosamente, o fogo vindo dos lados de Santo Amaro lambeu toda a serra e, depressa demais, chegou às portas do Casteleiro.

Santo Amaro serviu de entrada ao gigante que haveria de chegar ao Casteleiro - Capeia Arraiana

Santo Amaro serviu de entrada ao gigante que haveria de chegar ao Casteleiro

O relógio da torre da igreja acabara de dar o sinal sonoro das quatro e meia da tarde, daquele primeiro domingo de agosto, quando uma nuvem de fumo negro, vinda dos lados de Santo Amaro, pronunciava longas horas de sobressalto para as gentes do Casteleiro.
Com o avançar da noite, agora cor do fogo, as labaredas altas cavalgaram descontroladamente destruindo mata, floresta e ameaçando animais e as culturas de fim de verão.
Para esta luta desigual foram chamados centenas de bombeiros, proteção civil, tropas, populares… quantidade de meios nunca vistos nesta aldeia pacata do Casteleiro.
Com a manhã a clarear, o medo e a ansiedade rodeavam os rostos cansados de uma gente que, ciclicamente é martirizada pelas impiedosas chamas destruidoras.
Já com as chamas em fuga descontrolada pela serra da Presa e do Cabeço Pelado, os reforços concentraram-se junto ao canal do regadio da Cova da Beira impedindo assim, a devastação de olival, árvores de fruto, animais, que fazem ainda parte da atividade agrícola deste povo. Com a água ali mesmo, o reabastecimento dos autotanques era constante enquanto, quatro aviões cruzavam o céu descarregando aqui e ali a chuva abençoada que ia contrariando a horrenda fúria das altas labaredas. Com a frente de fogo já próxima dos terrenos agrícolas vários tratores lavravam, lavravam, a uma velocidade nunca vista, despreocupados com a pertença da terra, pois o que interessava mesmo era travar o feroz inimigo.
Enquanto isso e com o fogo já a chamuscar-lhe as primeiras árvores de fruto, António Ângelo clamava pela ajuda tardia dos meios a operar no terreno, sob a profissionalizada coordenação das «tropas de elite» da Proteção Civil. Não fosse a ajuda de sua filha e genro, tudo ficaria reduzido a cinzas! O mesmo aconteceu ao seu vizinho, José Carlos Martins e irmão que, já com a exaustão a vencer-lhe por completo as poucas forças, dizia «não apareceu aqui ninguém… fomos só nós que safámos as nossas coisas…»
Paradoxo de tudo isto, eram as centenas de operacionais e dezenas de viaturas, espalhados pela extensa frente de fogo, com o «quartel-general» montado mesmo em frente ao Lar da aldeia.
Neste cenário dantesco algumas questões se impõem: Com tantos meios no terreno não seria possível fazer melhor? Se a coordenação dos meios estivesse nas mãos de operacionais (bombeiros) da região não tornaria as coisas mais simples e mais eficazes? Pude testemunhar, no terreno, a dificuldade de orientação de alguns operacionais vindo de vários pontos do país… na busca do caminho certo para cumprimento da sua nobre missão.

Agora que o gigante está vencido é justo prestar a minha homenagem a todos os bombeiros, que estiveram no terreno, com particular destaque aos BOMBEIROS DO SABUGAL.
Interessa evidenciar o papel da Junta de Freguesia do Casteleiro que permaneceu de «mesa posta» no Largo de São Francisco, no apoio aos bombeiros e a todos os que com eles lutaram.
Uma palavra de apreço para o Rui, gerente da Casa Esquila, que sem lugar a descanso, forneceu refeições necessárias a este batalhão de gente.
Por último, uma palavra muito especial para o povo de Casteleiro que unindo os seus esforços, ajudou a travar a fúria desmedida do fogo.

Nota:
Ainda a propósito da (des)coordenação dos meios não resisto a trazer ao convívio dos leitores um episódio passado com os militares que ali se encontravam. Uma vez chegados ao Casteleiro com uma pesada máquina de rastos vinda, talvez do Quartel de Santa Margarida (?), por volta das 14 horas de segunda-feira permaneceu imóvel, durante longas horas, sobre a zorra que a transportara. Questionando um dos militares ali presente sobre a inoperacionalidade da dita, foi-me respondido que o Caterpílar não poderia ser descarregado pois a missão a que estava destinado – abertura de aceiros (caminhos) não poderia ter lugar pois, para isso, era necessário atravessar o canal do regadio. Como o seu peso era superior a vinte e cinco toneladas, não arriscariam tal travessia uma vez que colocava em perigo a estrutura do próprio canal.
Conclusão: a máquina de rastos, a zorra, o bidon de 200 litros de gasóleo, um geep e a tropa respetiva regressou tudo ao quartel com a sua missão cumprida.
Quem mobilizou este meio teria avaliado este risco?
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«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

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