Hoje há festa na aldeia

César Cruz - Desassossego - Opinião © Capeia Arraiana

Hoje há festa na aldeia… As ruas engalanadas preparam-se para acolher os que, de malas feitas, regressam, por uns quantos dias, à terra que os viu nascer… Hoje há festa na aldeia… e é assim todos os anos.

Por uns dias

Por uns dias

O nosso concelho aumenta de tamanho. No mapa as fronteiras que nos delimitam ganham novos contornos. Na verdade temos muitas fronteiras que desaparecem nesta altura do ano. A fronteira do despovoamento, do envelhecimento populacional, da periferia… sim. É que embora Portugal se encontre na periferia da Europa, também nós aqui, neste canto, nos encontramos na periferia do nosso próprio país. Esquecidos e votados ao abandono. Mas não nesta altura. Os nossos regressam uma vez mais. Nem que seja por uns dias, pois não lhes é permitido estar mais tempo. Mandaram-nos emigrar e nunca mais voltar. Alguns voltam… Outros gostavam, mas não podem. Mas são cada vez menos. Ano, após ano, vão desaparecendo os rostos e as mãos daqueles que os moviam até cá. Ano e após ano, o português vai desaparecendo do sotaque e o francês é língua mãe. Será que amanhã haverá ainda festa na aldeia? Será que amanhã ainda haverá quem carregue bagagem até às nossas terras?
Mas hoje é dia de festa na aldeia. As fitas esvoaçam no ar e o ribombar dos bombos relembra o ressoar dos outrora proibidos foguetes. Por instantes o isolamento é quebrado. Por agora o regozijo suprime a angústia das aldeias fantasma que paira sobre nós. Por agora… Mas amanhã não! Amanhã os fantasmas hão-de voltar, trazendo à memória o que nunca foi feito, o que foi esquecido, o que foi perdido. Será tarde? Veremos. Ou talvez não!
Por ora é tempo de festa. É tempo de cartazes lindos, de espetáculos de encantar para visitante enfeitiçar. Já houve visitantes. Agora temos praças vazias de gente. Agora só nos visita quem é de cá. Os que um dia saíram para, quem sabe, nunca mais voltar. Mas hoje é dia de festa. Que se faça festa neste dia que amanhã, quem sabe, depois de praças limpas, ainda haja motivo de regressar.
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«Desassossego», opinião de César Cruz

One Response to Hoje há festa na aldeia

  1. António Emídio diz:

    César :

    A emigração é sinónimo de economia, mas no nosso Concelho, falo especificamente dele neste comentário, a emigração também abriu uma janela á Europa, Europa da Liberdade, da Democracia e da Justiça Social. Não que viessem os emigrantes nas suas férias fazer comícios ou falar da política francesa, mas ao ouvi-los falar, já numa atitude de rebeldia, sobre o que deixaram no Concelho quando partiram, e que ano após ano continuavam a encontrar, a nível de mentalidades, medo, subserviência, Igreja, e até, trabalho-salário ( não numa visão marxista ou de luta de classes ) simplesmente « como é possível que isto ainda seja assim ! », e até no vestir, levou a que se fosse compreendendo o que se passava além Pirenéus. O Estado Novo, ( seus representantes ) estavam sempre alerta…Mas aqui, sendo uma zona extremamente conservadora e sem indústria ( fábricas – operários ) não havia problemas… No Concelho do Sabugal dizia-se que as remessas de divisas enviadas pelos nossos emigrantes deveriam ser aplicadas no desenvolvimento das nossas terras, mas o Estado Novo tinha outra prioridade para o « investimento », Guerra Colonial.
    1 de Janeiro de 1986, data da adesão de Portugal à União Europeia, mas 25 anos antes já os nossos emigrantes nos tinham mostrado o que era a Europa.
    Muito lhes devemos, não só economicamente.

    António Emídio

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