Europa associal

César Cruz - Desassossego - Opinião © Capeia Arraiana

A Europa está associal. O individualismo impera e reina. O Estado social, porque foge ao estereótipo das ideias mercantis, é combatido e destruído. Estamos a regressar aos primórdios da génese do Estado social. Nem tudo será mau. Recuar dará oportunidade de recomeçar.

Europa Solidária - Capeia Arraiana

Europa Solidária?

Perante o Grexit, termo escolhido para designar a hipotética saída da Grécia da moeda única, fomos invadidos pelo fantasma do desmoronamento de uma Europa cansada e falida. Na verdade a Europa encontra-se falida só na periferia. O núcleo duro encontra-se bem protegido. Já há quem proponha que seja criado um governo dentro da Zona Euro, constituído apenas pelos seis países fundadores da União Europeia (Alemanha, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo, Países Baixos), com orçamento e parlamento comuns. Esta ideia de Hollande é tida como uma medida fundamental para relançar a Europa. Mas onde fica o projeto europeu, assente nos pilares da solidariedade, cooperação e desenvolvimento?
Hollande talvez esteja a provar que, tal como Merkel, quem manda em sua casa é ele, mas isto não pode ser obtido a expensas do colapso e da desintegração do projeto europeu. Os valores fundacionais da nossa União Europeia encontram-se apropriados por governos que mais não são do que marionetes dos interesses do mercado financeiro, ou seja do neoliberalismo. A social-democracia, a democracia cristã e outras ideologias que antes eram as defensoras do social, vestiram roupagens que não são as suas. Surgem os partidos extremistas que apontam soluções. E o povo o que quer é soluções. Desde a extrema-direita à extrema-esquerda, as ideias vão avançando e pulando. E a Europa adormece. E os ignóbeis traçam rumos futuros sem perspetiva de decência social nem democrata. As políticas só fazem sentido quando vão ao encontro das pessoas. É certo que, geralmente, os fazedores das leis as constroem consoante o ribombar das suas ideologias e interesses. Mas é tempo de olhar para os povos, para as pessoas. Para o seu sentir e o seu viver. O desfasamento com a vida real é demasiado elevado. A Europa está associal. O individualismo impera e reina. O Estado social, porque foge ao estereótipo das ideias mercantis, é combatido e destruído. O fim está próximo. Voltemos a Bismark e a Keynes, regressemos às lutas operárias para refazer um novo projeto social europeu, onde cada um vale como pessoa, onde cada um é importante, mas onde o sentimento coletivo de pertença estende uma mão social de ajuda, na promoção da dignidade humana e social.
Precisamos de uma nova política social onde não haja lugar para Coelhos nem Merkels, mas onde os Hollandes se contenham mais nas suas cogitações mentais.
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«Desassossego», opinião de César Cruz

2 Responses to Europa associal

  1. António Emídio diz:

    César :

    A União Europeia assumiu integralmente os dogmas Neoliberais e privou os Estados do seu direito e da sua responsabilidade, como soberanos que são ( ou deveriam ser ) de elaborar a sua política e as suas estratégias, principalmente as económicas.
    Por sua vez, o Euro, impede os países do Sul da Europa, entre eles Portugal, de serem competitivos, se o quiserem ser têm de carregar com a deflação, e com o que ela provoca, desemprego em grande escala.

    António Emídio

  2. Ramiro Matos diz:

    caro César

    Mais uma vez totalmente de acordo.

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