Garantias de quem nos governa

César Cruz - Desassossego - Opinião © Capeia Arraiana

Enquanto uma ou outra carta de garantias de governação nos vão sendo apresentadas, distraímo-nos com notícias de futebolês e de outros quadrantes. Mantegazza referia que, em certos casos, a ignorância é uma grande garantia da felicidade. Vivemos, então, num país muito feliz. E há quem proporcione essa felicidade.

Garantia de Satisfação - Capeia Arraiana

Garantia de Satisfação

Enquanto a coligação apresenta esta semana nove garantias para as novas legislativas, somos levados a desviar a atenção para a janela da distração. Atenção. São garantias. São certezas, sempre refugiadas «no que depender do governo». Assim é fácil governar. Assim é fácil garantir seja o que for. Garantir isto ou aquilo, no que depender do governo. Mas hoje nada depende governo. Mas deveria depender. O Estado é a criação por excelência da sociedade, onde o cidadão não é individualizado, mas é incorporado numa sociedade, numa visão de conjunto. Efetivamente o Estado deveria ser a instituição fundamental de cada sociedade. E se através da ordem jurídica se coordenam as ações sociais, é por meio da administração pública que se garante essa coordenação. E temos sido mal coordenados. Em Lisboa. E não só!
Se para Hegel a construção do Estado constituiu o momento mais alto da racionalidade humana, com o desgoverno em que nos encontramos atingimos um inquietante questionamento sobre os seus fundamentos. Voltamo-nos para as estruturas da necessidade humana individualizada (sociedade e economia) e questionamos a liberdade e a vontade humanas que deram origem ao Estado e à política. O Estado terá de voltar a ser o instrumento por excelência da ação coletiva. Infelizmente, quem constrói o Estado não somos todos nós. Com muita pena para Rosseau. Há uns «nós» que constroem efetivamente o Estado e há uns «nós» que nem sabem o que é o Estado ou que são simplesmente eliminados dessa construção. Após as lutas por um Estado nacional, batalhou-se por uma forma democrática desse Estado. E agora? Agora dão-se garantias. Garantias que mais não são do que propaganda política. Garante-se tanta coisa… Aliás, na Carta de Garantias apresentada pela coligação, garante-se «uma sociedade com maior autonomia e liberdade de escolha». Bem, como eu tenho liberdade de escolha e face a esta garantia, garanto que escolho uma alternativa a esta forma de governar. Por mais garantias que possam dar em Lisboa ou aqui, garanto que não acreditarei nelas nem facilmente as aceitarei! E nós aqui? Quando haverá garantia que as garantias prometidas se cumprirão?
:: ::
«Desassossego», opinião de César Cruz

One Response to Garantias de quem nos governa

  1. João diz:

    Foi só um “show” para ir ocupando espaço mediático. É marketing, servido por meios de comunicação que vão esquecendo o seu dever de distanciamento e sentido crítico. Temos os governantes e os jornais que merecemos. Não será ?

Deixar uma resposta