Marc Chagall, o poeta da pintura

Joaquim Tenreira Martins - Opinião - Capeia Arraiana

Depois da vista à exposição sobre Marc Chagall no Musėes Royaux des Beaux Arts de Belgique, em Bruxelas, disse para comigo que, tendo já tudo sido dito sobre este grande pintor do século vinte, que mais poderia eu dizer? Não pretenderia fazer uma nota biográfica, nem uma análise da sua obra, mas simplesmente entrar em contacto com a sua sensibilidade artística e com o seu itinerário pictural e poético.

Auto-retrato de Chagall, 1911

Auto-retrato de Chagall, 1911

Para aqueles que, como eu, gostam de sonhar, Chagall constitui uma referência. Oriundo de uma aldeia dos confins da Rússia, numa família de pequenos independentes e numa fratria de 9 irmãos, assimilou muito cedo a sua identidade cultural que mais tarde a transmitirá, como uma obsessão, ao longo das suas pinturas. Nascido no seio de uma família judaica, a sua pintura abordará muitas vezes temas relacionados com a religião ou a terra que o viu nascer. Peregrino de terras e de nações, incarnou fisicamente na sua pele a imagem do judeu errante que nos apresenta em muitas das suas telas, às vezes de uma maneira impercetível, todo alquebrado, com um saco às costas, e mantendo o bordão para não desfalecer, a caminho de uma terra de acolhimento.

O Judeu errante

O Judeu errante

Tal como todos nós, também Chagall devia ter passado por uma crise de identidade, e aos trinta anos, escreveu um livro que intitulou A Minha Vida. Ainda novo, teve a intuição do que seria o seu futuro. Não pretendeu renunciar a nada do que adquiriu na infância e naquele que teria sido um dos primeiros auto-retratos, apresenta-se como transportando para Berlim a sua aldeia, a sua família e ao mesmo tempo mostra-se transformado, com um rosto mais feminino, mais sensível, mais sonhador.
Chagall marcou cedo a base poética do seu terreno pictural, como se pode notar no quadro Eu e a minha aldeia, 1911. Nele as pessoas voam, os animais falam com o artista e, em Paris onde este quadro foi pontado e no qual se notam influências dos pintures da época, não lhe saem da mente as imagens da sua terra natal, Vitebsk, na Bielorrússia.

Eu e a minha aldeia

Eu e a minha aldeia

Surrealista, Marc Chagall segue as orientações do movimento, ultrapassando-o mesmo. Dá largas ao sonho que transmite constantemente nos seus quadros, sem se preocupar das leis da gravidade. Encontramos violinistas, burros, galos, objectos em lugares totalmente improváveis, sem se preocupar com as leis da gravidade. O importante é o sonho, a magia, a poesia e a plasticidade na arte.
Solidário com o povo judeu, está perfeitamente consciente dos tempos tenebrosos que se aproximam com a devassa tentação de aniquilamento da nação judaica pelo partido nazi. E entre os anos trinta a meados dos anos quarenta, as cores dos quadros de Chagall tornam-se sombrias, cor de sangue, com figuras de Cristo crucificado, ao lado do eterno judeu errante e do rabino que procura a todo o custo salvar os rolos da Tora para a tradição não se perder. É nessa altura que afirma: considero-me um dos filhos do povo judaico que os criminosos empurraram para os campos de concentração e para os fornos crematórios.
Mesmo nos anos mais terríveis da sua vida – os horrores da guerra, o falecimento imprevisível de Bella, a fiel companheira – foi a arte e a música que o salvaram de cair no dessespero.
No fim dos anos 50, nota-se o aparecimento de flores nos seus quadros como para nos assinalar um novo rumo na sua vida, tentando refazê-la com Velentina Brodsky, a Vava, como lhe chamará que o levará em direcção do Midi, em Saint-Paul-de-Vence.
Fiel às raizes de infância e cada vez mais arreigado aos ideais que congregam os valores da Tora, Chagall torna-se um artista célebre, apreciado tanto por judeus como por cristãos. Andre Malraux, então Ministro da Justiça, encomenda-lhe, em 1964, a decoração do tecto da Ópera Garnier de Paris, onde um círculo de cores vivas voam num movimento centrífugo, associando autores de música francesa, alemã e russa. Também no Metropolitan Opera, situada no Lincoln Center de Nova York, Marc Chagall deixa duas obras monumentais: As Fontes da Música e O Triunfo da Música.

Vitrais da cathedral de Reims

Vitrais da cathedral de Reims

Afirma-se ainda na técnica do vitral e do mosaico, tornando-se um modo de expressão privilegiada para traduzir a mensagem bíblica que podemos admirar nas catedrais de Metz, Reims, igreja d’Assy e sinagoga de Jerusalém.
Marc Chagall é um dos artistas mais notáveis do seculo vinte, a quem a França concedeu a nacionalidade francesa. Em 1985 morre em Saint-Paul-de-Vence, aos 97 anos de idade.
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«Pedaços de Fronteira», opinião de Joaquim Tenreira Martins

One Response to Marc Chagall, o poeta da pintura

  1. Muito bem descrita a vida e obra de CHAGALL. Os meus parabéns.

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