-As marcas da Revolução

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CASTELEIRO :: :: A pobreza e a miséria estavam estampadas no rosto dos homens, mulheres e crianças, verdadeiros escravos de um país cinzento, “à beira-mar plantado” e orgulhosamente só perante o mundo.

Militares da 5ª Divisão do MFA em ação de sensibilização

Militares da 5ª Divisão do MFA em ação de sensibilização

As ruas lamacentas a contrastar com a falta de água nas habitações, as galinhas pelas ruas, o chiar dos carros de bois logo de madrugada, as crianças mal agasalhadas a caminho da escola; os aerogramas, a cartas com selo francês engordavam a sacola do carteiro. As mulheres, de lenço negro à cabeça, transportavam consigo a ausência dos filhos, subtraídos por uma guerra desumana e injusta, enquanto os maridos tinham entregue a sua sorte a uns passadores, ávidos de escudos, pesetas, francos…
Esta era a paisagem, fria e desumana, de uma aldeia a quem a História se encarregou de martirizar. A guerra, a emigração, o analfabetismo percorreram todas as ruas, todas as famílias da aldeia, até que um dia … 25 de abril de 1974.
Como dizia Sophia de Mello Breyner, “Esta é a madrugada que eu esperava/O dia inicial inteiro e limpo/… E livres habitamos a substância do tempo”. Sim, rapidamente os ecos da Revolução dos Cravos chegaram à aldeia!
Quem não se lembra do papel da 5ª Divisão do MFA nas Campanhas de Dinamização Cultural e Ação Cívica, privilegiando o contacto direto com as populações rurais e preenchendo o vácuo cultural e de informa¬ção política existente em todo o País, com particular incidência no interior, caracterizado “pelo subdesenvolvimento cultural e político”.
O atual Centro Cultural do Casteleiro, então pertença da senhora dona Maria do Céu, foi palco dessas ações, de esclarecimento político e cultural. Lauro António esteve lá, juntamente com os militares da 5ª Divisão, em plena missão de “politizar” o povo. O salão enchia, tal era ânsia de conhecer o então desconhecido, de perceber os primeiros sinais da Revolução, de ver e ouvir peças de teatro de autores como Brecht, Luís Sttau Monteiro, entre outros, tão em voga neste tempo renascido.
Entretanto esta “casa do povo” era ocupada e, um grupo de jovens, com o sangue a fervelhar nas veias, tomou mãos à obra e criou o Centro Cultural do Casteleiro, que até hoje tem servido de teto à sede da Junta de Freguesia, ao Posto Médico (atualmente na antiga escola das rapazes), à Associação da Caça e Pesca, para além de outros eventos de caráter coletivo.
Também no âmbito da Ação Cívica e Cultural das Forças Armadas as crianças do Casteleiro viram instalado o primeiro e único parque infantil (perto da escola nova, agora encerrada por falta de alunos), oferta da Comissão de Trabalhadores da Lisnave. Escola que pela primeira vez via sentados, lado a lado, rapazes e raparigas com uma alegria contagiante, capaz de derrubar o muro que até então separava o espaço de recreio de ambos os sexos. Agora, a escola unia o que até então separava. Agora, a escola passaria a abrir as suas portas ao mundo, às novas ideias, a novas fontes de saber.
Tal como aconteceu noutros períodos da nossa História, também em 25 de abril de 1974 o povo soube dizer PRESENTE, assimilando e preservando os ideais da Revolução, como bem evidenciam as escolhas políticas que vem fazendo ao longo destes 41 anos de Democracia.
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«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

2 Responses to -As marcas da Revolução

  1. JFernandes diz:

    Caro JGouveia:

    Por muito que muitos, e ás vezes os mais esclarecidos, condenem os “exageros” que do ponto de vista político se praticaram a seguir ao 25 de Abril, em que a célebre 5ª. Divisão do Movimento das F Armadas teve um papel dominante no que se refere ao esclarecimento cívico, não podemos, mesmo hoje a esta distância esquecer como era o nosso pais antes daquela data.
    Era, foi, parece-me a mim natural, que tivessem ocorrido exageros quando um povo, está amarrado e de repente alguém corta as cordas.
    Isso foi o que aconteceu. Todos tinham necessidade de saber coisas. por isso enchiam os salões dos diferentes Casteleiros É normal que assim tenha sido.
    jfernandes

  2. Joaquim Luís Gouveia diz:

    JFernandes

    Claro que sim! O nosso povo estava ávido de informação, pronto a receber os novos ventos desta revolução. O papel da 5ª Divisão foi, sem dúvida, decisivo para “culturação” dos menos esclarecidos, que era a maioria dos portugueses.
    Passados que são estas quatro décadas após a Revolução, oxalá que o espírito de abril de 1974 persista e se rejuvenesça diariamente.

    Abraço

    JGouveia

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