Liberdades (a)condicionadas

César Cruz - Desassossego - Opinião © Capeia Arraiana

Tomamos por certa a liberdade que outros nos colocaram nas mãos. Seremos justos merecedores de algo que não conquistamos diariamente? Vivemos liberdades que aprisionam a mente, mesmo que o físico vagueie errante por aí. A liberdade será um aprisionamento se não for assumida e conquistada por cada um de nós.

Liberdade - Capeia Arraiana

Liberdade

«Abdica e sê rei de ti mesmo», dizia Fernando Pessoa. Tomamos a liberdade como garantida, como um património que desponta com o próprio nascimento do Homem, não tendo consciência que é de estrutura frágil e quebradiça. Goethe afirmava que só era digno da liberdade, como da vida, aquele que se empenha em conquistá-la. Tomamos por certa a liberdade quando o que existe é uma dissimulação e reconstrução da mesma. Somos chamados a escolher e a fazer escolhas, e pensamos que liberdade é ter essa opção. Theodore refutava essa ideia, ao considerar que liberdade não é poder escolher entre preto e branco mas sim abominar este tipo de propostas de escolha. Há quem escolha por todos nós na dita democracia. Há quem nos proponha escolhas que mais não são do que condicionantes e imperativos ideológicos. Há quem diga que vivemos em liberdade mas uma liberdade feita de imagens e subterfúgios. Ainda bem que aconteceu abril. Mas falta cumprir-se Portugal. Falta cumprir-se o espírito autêntico da revolução dos cravos.
Sartre afirmava que não fazemos aquilo que queremos e, no entanto, somos responsáveis por aquilo que somos. Mas somos responsáveis pelas escolhas que os outros fazem? Dizem que somos livres se escolhermos. Dizem que somos livres porque nos libertaram. Que antes é que era mau. Todos se dizem heróis da liberdade. Mas já vivemos liberdade? O desempregado tem liberdade? O que não tem acesso às condições básicas tem liberdade? O que não tem acesso à saúde tem liberdade? A aprendizagem conduz à liberdade de não ter emprego e não ter vencimento? A desigualdade social facilita a promoção de valores? O individualismo sobressai numa sociedade fraturante e cada vez mais fragilizada. É certo que Fernando pessoa dizia que a liberdade é a possibilidade do isolamento e que se nos for impossível viver sós, é porque nascemos escravos. Porém não é a procura da sociedade egoísta e individualizada que conduz à autêntica vivência da liberdade. Da mesma forma a falta de liberdade não consiste jamais em estar segregado, e sim em estar em promiscuidade, pois o suplício inenarrável é não se poder estar sozinho, como nos transmite Dostoievski. Tantas vezes somos rebanho que segue por seguir e pensa que é livre por poder seguir o que os outros buscam. Liberdade onde estás? Faltaste a outras gerações no passado. Também hoje faltas. Não porque foste roubada, mas porque foste apropriada pelas mãos de poucos. Que se sentem livres, às custas da escravidão de tantos…
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«Desassossego», opinião de César Cruz

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