As Culturas de Regadio

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

Entre o sequeiro (centeio, trigo, cevada) e o regadio (batata, feijão, alface) a diferença é a rega. As culturas de sequeiro são decididas pela natureza enquanto que as de regadio têm intervenção de ambos: do homem (regando) e da natureza.

Picota junto a uma leira de favas

Picota junto a uma leira de favas

As culturas de regadio, principalmente durante o verão, em que o calor nas terras raianas atinge valores muito altos, necessitam, para se desenvolver, de ser regadas com regularidade. A rega deste tipo de culturas era feita a partir da água dos poços que por norma se abriam nas terras que cada um possuía.
Esses poços que eram abertos em locais previamente “estudados” por entendidos em águas subterrâneas a que se chamava “Vedores”. Os poços rurais eram, para além de nascentes também verdadeiras reservas de água.

Campo de batatas antes da rega

Campo de batatas antes da rega

Destes poços ou mesmo do rio, durante o inicio do século XIX, 1ª. metade, a água era retirada para regar utilizando utensílios primários a que se adicionava trabalho braçal das pessoas. Era a picota, ou cegonha ou picanço.
Este engenho, cujas características rudimentares facilmente são perceptíveis por quem para ele olhe, constituía já uma forma menos penosa de tirar água dos poços para regar.
A picota era formada por 3 partes: A forquilha, a vara e o cambão.
A forquilha era o suporte de todo o engenho pois funcionava como suporte do eixo que, furando o cambão a meio, permitia que este se deslocasse quando manobrado com a vara.
O Cambão era uma peça longa e robusta, que rodava em torno do eixo permitindo a manobra do balde. Na parte de trás do cambão era por norma colocado um contrapeso, uma pedra, e que se destinava a ajudar na elevação do balde.
A vara era a terceira peça, por norma fina para permitir que o manobrador pudesse com as mãos puxar para baixo primeiro e depois para cima.
Este equipamento rude funcionava da seguinte forma: Com um balde na extremidade da vara, o operador puxava a vara para baixo, dentro do poço. Era preciso fazer força pois como se disse o cambão tinha na sua parte final um contrapeso – Uma pedra. Quando o balde atingia, dentro do poço o nível da água, com algum jeito enchia-se. Seguia-se então o puxar da vara para cima, aqui ajudada pelo peso da pedra na ponta do cambão até que o balde atingisse o nivel da boca do poço. Aí era despejado e todo o processo se repetia de novo enquanto houvesse água no poço ou “renovo” para regar.
Uma das descrições mais completas que já vi sobre este equipamento rural e básico foi no blog “A Aldraba” (aqui) pelo que convido o leitor a visitá-lo.
A picota era usada em situações em que não havia disponibilidade para instalar uma nora (fossem de natureza física ou mesmo económicas). Também se usava a picota para tirar água quando a dimensão da área a regar era mais pequena.
O signatário, embora não tenha experimentado a doçura que seria estar uma manhã inteira a tirar água dum poço desta forma, ainda assistiu a isso, na sua meninice, sendo essa doçura saboreada pelo seu pai. Tirar água desta forma e durante uma manhã não tirei, mas regar sim, apesar da idade. Naquela época desde muito tenra idade, a generalidade das crianças, trabalhava no campo, ajudando os seus pais.
Mas afinal em que consistia a rega? Como se regava naqueles tempos? Bem a rega era essencialmente “rega por pé”.
A rega por pé consistia em encher de água os regos previamente feitos entre as diferentes fiadas de plantas de (batatas, feijão, milho, etc). A água tirada do poço, era despejada, balde a balde, no tabuleiro junto ao poço e dai conduzida aos regos, através dos tornadoiros.

Milho a precisar de ser regado

Milho a precisar de ser regado

Em bom rigor a rega podia ser executada de uma de duas formas: Ou se começava no inicio das leiras ou no fim, dependendo da posição em que ficavam os regos depois da última vez que uma leira foi regada.
A primeira vez que se rega uma leira, começa-se no fundo da leira. A água corre ao longo de toda a leira até ao fim Abre-se o primeiro tornadoiro para a água correr para o primeiro rego. Logo que o rego esteja cheio, é altura de abrir o tornadoiro seguinte para que a água corra para o segundo rego e assim sucessivamente.

A nora

A nora

Quando a situação económica da família ou a dimensão da terra tratada o justificava, a picota era substituída pela nora. A instalação da nora obrigava à construção de algumas infraestruturas associadas nomeadamente, quando se tratava de poços, à sua geometrização e, quando se tratava do rio à instalação dos suportes, por norma salientes sobre o rio e que suportavam o tambor por onde os copos circulavam e despejavam a água na masseira.
Os copos da nora têm um furo no fundo. A razão principal para a existência deste furo reside no facto de, quando a nora pára e termina a rega de um dia, os copos estão cheios de água que convém seja esvaziada. Ora, só há duas formas de os esvaziar: Ou através do furo no fundo ao fim de algum tempo; Ou, fazendo rodar a nora em sentido contrário até o último copo cheio ficar dentro da água do poço ou do rio.
Claro que esta última hipótese é contra-natura e por vezes como as noras tinham uma espécie de travão que as impedia de andarem para trás – e que faziam um barulho característico à medida que saltava de dente para dente da roda dentada, para poderem concretizar esta anti-volta era preciso, primeiramente destravar a roda.
Ainda no que se refere às noras, e como facilmente se compreende, durante a primavera/verão elas eram montadas nos poços. No Outono os copos eram retirados dos poços ou do rio e, enrolados na zona seca, ou seja no muro da roda, envolvendo circularmente a zona da roda dentada. Ainda hoje, nas noras que ainda se vêem nos campos, durante o inverno, ou nos casos de campos semi abandonados, durante todo o ano, os copos das noras estão colocados naquela posição.
Para além do mecanismo associado à nora era necessário também construir o espaço destinado ao animal que iria puxar a nora, por norma um burro. O “muro da roda” era o nome dado a essa construção, por norma circular e, na zona de circulação do animal, de terra batida.
Aqui, o animal era preso ao cambão da roda, eram-lhe tapados os olhos e toca a andar…. O animal tinha os olhos tapados para não ficar desorientado com as sucessivas voltas que tinha que dar para fazer andar a nora e permitir que se pudesse utilizar a água na rega.
As noras mantiveram-se durante muitos anos e mesmo hoje, em 2014 ainda se conseguem ver poços com as noras montadas embora, por força do abandono das terras, também as noras o foram e por isso, muitas estão totalmente degradadas. De qualquer modo continuam a ser um mecanismo interessante e que, mesmo degradadas vamos continuar a vê-las por mais alguns anos.
Mais tarde, começaram a aparecer os motores de tirar água que resolviam grande parte do esforço de homens e animais e eram alimentados a petróleo primeiro e depois a gasolina.
Na medida em que se tratava de máquinas, a velocidade e quantidade de água que se tirava podia ser controlada e por isso, os motores foram uma evolução no trabalho do campo principalmente no que se refere à rega.

O motor de tirar água

O motor de tirar água

Claro que os motores relativamente às noras tinham a vantagem de poderem ser deslocados de uma horta para outra enquanto que as noras estavam fixas e faziam parte da própria propriedade que regavam. As noras obrigam a deslocar o animal. No caso dos motores não há animal e desloca-se o motor.
As culturas de regadio de cuja rega tenho vindo a falar eram, na minha zona essencialmente batatas, feijão, milho, cebolas e hortaliças.
O ritual da rega, era necessariamente repetido, em cada uma das hortas, e durante o verão, pelo menos uma vez por semana, dependendo essencialmente da ocorrência de maiores temperaturas.
Claro está que as culturas de regadio não podiam passar sede sob pena de a produção no final poder ser grandemente diminuída se isso acontecesse.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

2 Responses to As Culturas de Regadio

  1. Fernando Lourenço diz:

    Uma boa descrição das várias formas de rega existentes nas nossas terras raianas.
    Outra maneira de regar era através da água de “presas” (represas) que eram abastecidas por nascentes ou minas.
    Havia também as “levadas” regos que saíam de açudes ou represas feitas nos rios e ribeiros.
    Hoje em dia há muitas propriedades onde os motores tiram a água dos poços e ribeiros e essa água é depois canalizada para aspersores ou difusores colocados de forma a regar todo o terreno cultivado, a rega já não é feita rego a rego e a intervenção humana ocupa menos tempo.

  2. Concordo e aceito estas evoluções. Lamento o abandono das nossas agricultura ,pois o nosso povo está envelhecido e falta a força!

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