Casteleiro – Terra de tradição

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CASTELEIRO :: :: A Festa das Flores – a Páscoa – era, sem dúvida, um acontecimento ímpar na vida rural e festiva das pessoas do Casteleiro.

A Páscoa é a Festa das Flores

A Páscoa é a Festa das Flores

Desde sábado que o sino não se calava. Os trabalhos agrícolas quedavam-se e só eram retomados depois do senhor padre abençoar as casas e suas famílias, num cortejo festivo, realizado na segunda-feira a seguir à Pascoa, a que não era alheia a alegria contagiante da gente miúda que, nesse tempo, abundava por ali.
No domingo de Páscoa, de manhã bem cedo, as ruas por onde haveria de passar a procissão eram engalanadas com um tapete multicolor de flores campestres. As janelas das casas também não eram indiferentes a tal manifestação de alegria! Dali saíam, de uma forma harmoniosa, as mais bonitas colchas que davam um verdadeiro tom de festa à passagem do Santíssimo.
Esta manifestação de alegria era também visível na igreja. Os panos pretos que tapavam os santos durante o período quaresmal tinham desaparecido, dando lugar a vistosos arranjos de flores, muito perfumadas, colhidas nos ajardinados quintais da aldeia. O soalho, onde os joelhos cansados haveriam de repousar e agradecer ao Senhor as suas preces, estava cuidadosamente roçado pelos braços vergados das mulheres do Casteleiro. A igreja estava bonita, parecia um verdadeiro jardim! Era, efetivamente, a festa das flores!
Tudo estava preparado para receber o Senhor, agora ressuscitado. As confissões e a «desobriga» efetuadas por um grupo de sacerdotes durante a semana antecedente, preparavam a alma dos pequenos e graúdos.
Durante a missa, neste primeiro domingo da Ressurreição, os cânticos de exaltação e alegria eram entoados pelas vozes melodiosas de um grupo de mulheres do Casteleiro e acompanhados pelo som monocórdico e, por vezes, desalinhado do órgão da igreja, colocado bem junto ao altar principal.
Com a eucarística quase a terminar, os homens de chapéu preto na mão, perfilavam-se para levarem os andores, as lanternas, as bandeiras e, claro está, o pálio, lugar destacado para o senhor padre elevar o Santíssimo Sacramento.
As rezas sucediam-se aos cânticos, pedindo e agradecendo sempre ao Divino pelas culturas, pelos animais … pela saúde na doença.
Enquanto isso, e com a procissão a percorrer as ruas engalanadas, os mais pequenos entretinham-se a olhar para as janelas, atirando flores a quem por ali estava, ou mesmo puxando a ponta de alguma colcha que, descuidadamente ficara mais baixa – coisas da criançada!

Hoje, apesar da natureza continuar a brindar-nos com o ciclo da renovação, as ruas vão perdendo pessoas, as janelas já não exibem colchas, os tapetes floridos rareiam e as crianças já não fazem tropelias!
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«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

One Response to Casteleiro – Terra de tradição

  1. antonio barreiros diz:

    obrigado senhor joaquin gouveia por estas recordaçoes dos meus tempos

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