Primus inter pares

César Cruz - Desassossego - Opinião © Capeia Arraiana

A locução latina primus inter pares significa «primeiro entre iguais», sendo usada para designar algo ou alguém que se destaca entre outros semelhantes. Estamos a presenciar reuniões de «Primus», mas será que o objetivo inicial não se converterá em assimetrias sociais?

Primus inter pares - César Cruz - Capeia Arraiana

Primus inter pares

O peso dos agentes sociais depende do seu capital financeiro, tecnológico, comercial, social e simbólico. O capital social recorre à mobilização de recursos através de uma rede de relações mais ou menos extensa ou mais ou menos mobilizável que visa uma vantagem competitiva. Recorrer a uma rede de personalidades, ou seja, recorrer a um capital simbólico de certos indivíduos, poderia determinar a confiança e a crença na transformação e na recriação social. Contudo teremos de estar muito atentos. Na verdade estes capitais geram, nesses agentes dominantes, vantagens sobre os demais. Ao estruturar um campo de ação poderão estar, apenas e tão-somente, a contribuir para o agudizar das assimetrias em que nos encontramos. Os que não possuem capital não conseguem estruturar seja o que for. Seria mais benéfico criar uma rede efetiva onde não há primeiros mas onde há identidades e vontades. Atenção às ideologias nobiliárquicas medievais e aos princípios doutrinários extremistas. Ainda nos incorrerá na nossa capta mente que os pobres e os excluídos, o são por culpa própria, sem valorizar o peso externo da sociedade? Infelizmente, sim!
Projetos Primus só surtirão efeito na medida em que não partam do pressuposto de que os que são «primeiros entre os iguais» se encontram num direito de definirem estratégias de ação excludentes e meramente vantajosas para um pequeno segmento populacional. Não nos esqueçamos que o capital da informação está garantido a quem ocupa posições dominantes. Teria feito mais sentido englobar todos os nossos emigrantes e não apenas os que ocupam lugares de destaque nas suas comunidades. É disso que se trata. Sejamos diretos.
A tentativa de se criar uma rede de «primeiros», sobre os «demais» pode ser perigosa. Só a ideia implica o reconhecimento de que existem cidadãos de primeira e de segunda, os dominadores e os dominados, os que possuem distintos capitais e os que nem sabem o que isso é! Os que podem definir futuros e os que não têm presente.
Resta-nos aguardar pelo cumprimento dos efeitos esperados. Que se cumpra «Primus» ou que se cumpram promessas (uma vez mais). E as promessas são: aumento da capacidade de influência do Concelho do Sabugal nas decisões regionais e nacionais de investimento e desenvolvimento do território; melhoria da imagem do Sabugal em mercados e comunidades com elevado potencial económico e social; valorização do exemplo e criação de uma comunidade inovadora e cooperativa; acesso privilegiado a mercados, conhecimentos e tecnologias por parte dos Sabugalenses através dos membros da rede; e mobilização de financiamento para projetos de maior risco e maior impacto a nível local e regional.

Plano Estratégico do Sabugal
A definir estratégias de visibilidade do Concelho, dos seus produtos e saberes, de atração de turismo, investimento e residentes.
A valorização de redes de conhecimento e distribuição seria outro dos aspetos a valorizar, assim como a mobilização de recursos para obras e atividades de carácter social, cultural e desportivo a realizar no Concelho.

Programa do Projeto
– Identificação de Sabugalenses com destaque relevante nas comunidades onde se inserem;
– Processo de desenvolvimento de convites para integrarem a «Rede Sabugal Primus»;
– Realização de um 1.º Congresso para definição e aprovação dos estatutos, objetivos e planos de ação setoriais;
– Dinamização de encontros de base semestral, um dos quais organizados no Concelho.
– Efeitos esperados:
– Aumento da capacidade de influência do Concelho do Sabugal nas decisões regionais e nacionais de investimento e desenvolvimento do território;
– Melhoria da imagem do Sabugal em mercados e comunidades com elevado potencial económico e social;
– Valorização do exemplo e criação de uma comunidade inovadora e cooperativa;
– Acesso privilegiado a mercados, conhecimentos e tecnologias por parte dos Sabugalenses através dos membros da rede;
– Mobilização de financiamento para projetos de maior risco e maior impacto a nível local e regional.
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«Desassossego», opinião de César Cruz

2 Responses to Primus inter pares

  1. António Emídio diz:

    César :

    Muito, mas muito haveria para dizer, mas eu fico por aqui :

    1º O que é realmente importante neste Concelho, o que decide em última instância o seu destino, é o trabalho silencioso e anónimo do conjunto dos seus habitantes. Estes são os primeiros, os outros são secundários.

    2º Idealistas e verdadeiros heróis dispostos a entregar-se a uma missão generosa e altruísta, sem recompensa, escasseiam cada vez mais ( mas felizmente ainda existem alguns, e algumas ! ) Estes são os primeiros entre iguais, os outros são secundários.

    3º A sociedade mais feia é aquela em que os opulentos são considerados como os melhores, quem isto disse foi Cícero Há milhares de anos !

    4º O poder compõe-se hoje de uma série de organismos e instituições semianónimos que actuam em grande parte à margem dos cidadãos, o que significa que o que se resolve nesses guetos ( sentido de falta de liberdade ) aparece em público como acto consumado e normalmente irrevogável.

    Adeus César.

  2. jclages diz:

    Caro César

    De latim não percebo quase nada.
    Sobre organismos e instituições (públicos e privados) esotéricos preferia não falar.

    No entanto aqui fica uma definição do Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado (Sociedade de Língua Portuguesa), tomo II, pág. 616.

    Espírito de Carneirada: Grupo de pessoas passivas ou submissas que suportam sem reagir a tirania ou o poder arbitrário.

    Bem-hajas por mais uma opinião lúcida, activa e insubmissa que gostei muito de interpretar.

    Mas não resisto a dizer-te que a interpretação «holística» da letra da tua opinião pode ser um ponto de partida mas não esgota a hermenêutica. Até porque a metafísica pode ser muito mais do que comer chocolates na Tabacaria de Fernando Pessoa. Quid Juris.

    E, já agora, não resisto a partilhar alguns versos que falam de uma Tabacaria mas podiam falar da verdade de «um amor à minha terra» cada vez mais sofrido:

    «Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

    Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.»

    (Tabacaria, de Álvaro de Campos)

    Se te sobrar tempo deves ler a Teoria da Interpretação, de Paul Ricoeur.

    Aquele Abraço Raiano,

    José Carlos Lages

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