Alpedrinha – a arte não morre

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Alpedrinha, vila situada no Sul da Serra da Gardunha, tem uma riqueza arquitetónica invulgar nos seus edifícios, no seu casario, nas igrejas e capelas, enquadrada numa beleza natural. Todavia, a sua maior riqueza está nas suas gentes, nos seus habitantes, que através de séculos se distinguiram na hierarquia eclesiástica, na vida política, social, militar, na medicina, na pintura, na literatura e tantas outras expressões de arte. Falo hoje de uma arte em Alpedrinha, que está em vias de extinção, é a arte da marcenaria, das peças embutidas.

Via antiga em Alpedrinha

Via antiga em Alpedrinha

Numa tarde fria conversei com o grande mestre na arte dos embutidos, de nome José dos Santos Monteiro Caniça. Escolheu-se um local, o Café Moisés, a lembrar-nos um grande profeta, que acompanhou o Povo de Deus e recebeu as Tábuas da Lei, onde estavam embutidos os Dez Mandamentos.
Em virtude do seu pai ter a profissão de ferroviário, teve de percorrer muitas localidades com estações dos caminhos-de-ferro, percursos que terminaram com a fixação em Alpedrinha.
Aos treze anos iniciou uma aprendizagem de mercenária nas oficinas de José Fonseca e Francisco Fonseca, gente que andou nas Belas Artes em Lisboa. Nos dias de hoje, seria considerado trabalho infantil, mas a verdade é que Caniça começou aqui a sua escola primária profissional. É bom referir que em Alpedrinha já tinha algumas tradições nestas artes, com destaque para Santos Pinto, marceneiro na Casa Real Portuguesa.
Durante três anos trabalhou gratuitamente, era o período de aprendizagem e no final desse tempo começou a receber mensalmente a quantia de cem escudos. Ali aprendeu marcenaria, embutidor gravador de sola, torneador, com uma enorme gama de trabalhos, inclusive a espiral, empalhador, polidor e restaurador. Tirou um curso superior, numa escola de prática oficinal.
Aos trinta e um anos, criou a sua própria empresa onde realizava todos aqueles trabalhos com maior incidência nos embutidos, que lhe dava mais gosto e prazer, porque era necessário além de bons conhecimentos, recorrer à imaginação e criatividade.
Para realizar as suas obras-primas, que merecerem a visita de um Presidente da República, usava as madeiras de buxo, pau-preto, pau-santo, pau-rosa e outros. As peças do embutido são recortadas em separado, levam um tratamento através de calor, queimados em areia, para atingir diversas tonalidades, o padrão e o desenho, e só depois encaixadas nos móveis (mesas, cadeiras, armários, camas, mesas de jogos…).
«As minhas peças são trabalhadas à mão, peça a peça, centímetro a centímetro, requerem muita paciência e calma. São concedidas para espaços concretos e determinados, com requinte, distinção e elegância.» Talvez por estas razões alguns jovens quiseram aprender, mas ao fim de algum tempo desistiram. Teve alguns empregados e alguns aprendizes, mas aos oitenta e três anos arruma as ferramentas e algumas peças, que espera ofertar à Santa Casa da Misericórdia de Alpedrinha, que está a organizar um Museu com esta temática. Ninguém quis seguir esta arte, nem os seus dois filhos. É mais uma atividade que se extingue e «faz-me doer a alma».
Miguel Ângelo escreveu que «a arte pode vencer a natureza, desde que o artista deixe a sua marca».
Em José dos Santos Monteiro Caniça brilham-lhe os olhos ao falar de uma profissão «que tem futuro, mas na atual situação que vivemos não há encomendas, há pequenas reparações». Tem orgulho e vaidade em saber que em muitas casas há trabalhos da sua criatividade, tesouros que testemunham a sua arte imorredoura.
Mais uma arte que hoje morre em Alpedrinha… Amanhã, ainda haverá futuro?
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

2 Responses to Alpedrinha – a arte não morre

  1. António Manuel dos Santos diz:

    A nostalgia tem a sua beleza. Mas o futuro faz-se a cada dia.

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