Do «luto carregado» ao «aliviar do luto»

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CASTELEIRO :: :: A atitude perante a morte, os ritos de que se reveste, as estratégias familiares que a rodeiam e os valores que dela emanam constituem um património que urge registar para que conste da memória imaterial da gente do Casteleiro.

Igreja do Casteleiro - Sabugal - Capeia Arraiana

Igreja do Casteleiro

O dia começava a clarear por de trás da serra D’Opa. Nas ruas da aldeia, povoadas de gente, começavam a sentir-se os primeiros sinais de mais uma jornada de trabalho prestes a começar.
Enquanto isso, o sacristão da aldeia tinha acabado de subir ao último degrau da alta escadaria da torre da igreja para dali repicar o sino a «dobrar», toque que todo o povo reconhecia de imediato, sinal de que alguém teria sido chamado a contas perante Deus.
A notícia não demorou a entrar por tudo quanto era casa: «Morreu a Ti Josefina, já estava entrevada há muito tempo, foi uma esmola!»
Agora era preciso amortalhar o cadáver, cumprindo os rituais de purificação (lavagens e embelezamento do corpo). A mortalha, constituída por roupa preta que a própria defunta tinha comprado outrora, num mercado de agosto, no Sabugal e que muito bem a guardara no guarda-fato, envolto em folhas de eucalipto e rocas de alfazema, para que alguma vez fosse corroído pela traça, mantendo-se intacto até ao momento em que a terra o desfizesse.
Depois de amortalhada, entre gritos e suspiros, deu-se início ao velório do corpo da ti Josefina, colocado mesmo no centro da sala. Tal como já tinha acontecido com sua mãe, a família ficou de luto carregado, bem visível nas roupas pretas que cobriam os corpos.
À hora marcada o senhor prior acompanhado de homens, exibindo vestes apropriadas, encimavam o Crucifixo, a bandeira das Almas e as lanternas acesas, aproximando-se da casa onde a ti Josefina dera à luz os seus sete filhos, quatro dos quais, sobreviventes das «maleitas» e «ataques» que dizimavam a criançada mais frágil dessa altura.
O compasso até ao cemitério foi interrompido a meio, para descanso dos homens que carregavam o caixão mas, também, pelas rezas que este momento impunha, a comando do senhor prior, para de imediato o povo responder.
Sem direito a mausoléu ou a uma simples lápide com o seu nome gravado, pois a sua condição social não o permitia, lá ficou a ti Josefina, numa campa rasa, para todo o sempre. Na hora da despedida, os familiares deixaram-lhe a promessa de, pelo menos uma vez por ano, revestirem a sua campa de mil pétalas de flores, obedecendo a formas sacro santas, repetidas e transmitidas de geração em geração.
Aos mais próximos, restava apenas guardar um luto carregado durante pelo menos um ano, para depois começarem a aliviá-lo. Uma fita preta colocada na manga esquerda da camisa ou do casaco exteriorizava o pesar dos homens lá de casa.
Durante quatro semanas, na missa dominical, ardiam quatro velas colocadas ao fundo da coxia lateral esquerda da igreja enquanto a família, enlutada, pedia perdão dos pecados da agora defunta.

1) «Acompanhamentos» Durante quatro semanas, antes da missa dominical, as pessoas da aldeia dirigiam-se à casa da defunta, rezavam pela sua alma e só depois caminhavam para a igreja. Depois de cumprido o ato dominical, o senhor prior dirigia-se ao fundo da coxia central, encomendava a alma aos pretéritos defuntos e, de antes de cada paroquiano regressar a casa passavam, novamente, na casa que durante uma vida pertenceu à ti Josefina para mais reza em sua intenção.

2) «Esmola» No último domingo de acompanhamentos, à saída da missa, os familiares mais próximos distribuíam «carcaças de trigo», acabado de cozer na padaria da aldeia, a todos que se lhes dirigiam, como sinal de respeito pelo ente querido mas também de agradecimento a todos quantos comungaram da sua dor. Se recuarmos mais no tempo, a «esmola» – fatias de pão, cozido no forno comunitário e distribuída aos mais necessitados que se dirigiam até à porta de casa onde tinha sido velado o corpo do defunto.

3) «Missa do corpo presente» que já não estava presente, realizava-se num dia a aprazar de acordo com a agenda do senhor prior fazendo-a coincidente, normalmente, com o dia dedicado à paróquia do Casteleiro.

:: ::
«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

Deixar uma resposta