Ecos da Semana Nacional da Cáritas

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

«Estamos perante o escândalo mundial de milhões de pessoas ainda hoje terem fome. Não podemos estar a fazer de conta que isso não existe.» – Papa Francisco.

Este tempo deve ser de solidariedade operativa e generosa

Este tempo deve ser de solidariedade operativa e generosa

Sob o tema «Num só coração, uma só família humana», decorreu a Semana Nacional da Cáritas – de 1 a 8 de Março.
Um panfleto distribuído, agregado a este acontecimento, dá-nos conta que este tempo de Quaresma deve ser de solidariedade operativa e generosa. É nestes tempos de crise que tem de ser estimulada a criatividade e a inovação. O mesmo documento relembra-nos as vivências das primeiras comunidades cristãs com «um só coração e uma só alma», e tudo o que era preciso para viver, «era posto em comum», de tal forma que «entre eles ninguém passava necessidade».
A Cáritas Portuguesa apoia cerca de cinquenta e quatro mil famílias, mais de metade recebem ajuda para a amortização do empréstimo de habitação própria, que não conseguem cumprir. Dadas as diversas necessidades, o apoio aumentou 41%, mais de um milhão de euros, para pagar as contas da água, do gás, das propinas, dos medicamentos e da luz. No caso concreto da luz, é escandaloso o facto de a empresa, que gere este bem social, ter tido um lucro de mil e quarenta milhões de euros, mais 4% do que em 2013. Com um País de pobres a pagar a energia mais cara da Europa, não há perdão, nem misericórdia, para quem se esquece de pagar as contribuições fiscais, entre elas, a segurança social.
Nesta Semana, muitas iniciativas foram levadas a efeito, com destaque e incidência para recolha de donativos monetários e de bens alimentares.
Com esforço e dedicação, muitos voluntários saíram à rua para a concretização do Peditório Nacional que decorreu nos dias 6, 7 e 8 de Março. O Grupo da Cáritas Paroquial de Aldeia de Joanes e Aldeia Nova do Cabo, apoiado pelos Escuteiros do CNE do Agrupamento 1335 da Freguesia de Aldeia de Joanes, meteu mãos à obra e saiu para o exterior.
É bom ouvir e perceber as pessoas que partilham e não partilham nestas ações cívicas e de caridade.
Um agente da autoridade, que estava bem esclarecido, sabia que os donativos entregues à Cáritas são bem encaminhados e utilizados para pessoas que necessitam, o que nem sempre acontece noutras instituições.
Um professor universitário diz que a caridade devia ser praticada por todos os cristãos. Em Espanha, uma vez por mês, os peditórios dominicais são destinados à Cáritas. Tem de haver maior empenhamento dos cristãos, na ajuda ao próximo, porque há gente com fome.
Um magistrado afirma que se caiu numa desgraça social. Não havia necessidade de se fazerem peditórios, se os dinheiros e as ajudas da CEE tivessem sido bem utilizados.
Um funcionário público diz que muita gente fala de solidariedade, alguns com muita hipocrisia, porque na sua mesa, esquecendo os outros, nada lhes falta em abundância.
Uma jovem jornalista salienta a importância de um grande número de voluntários se dedicarem a estas causas, proporcionando estes peditórios, porque há gente com fome em Portugal.
Um agricultor salienta a necessária ajuda porque há muitas carências, mas sente-se revoltado porque ainda há dias o fisco banalizou a fome, quando penhorou alimentos doados a uma instituição de apoio social, por dívidas de portagens.
Um empresário vestido com roupas de marca, com ar gingão, solicita que deviam pedir para ele, porque também tem necessidades. Antes de se ausentar, numa máquina puxada por muitos cavalos, foi-lhe indicado o local a fim de lhe fazerem a triagem para análise da sua situação socioeconómica e familiar, para eventual ajuda. Ainda não apareceu…
No final do Peditório, aparece um jovem autarca transmontano na TV, radiante e orgulhoso por ter levado até aos confins do mundo sinais de cultura, apresentando gratuitamente aos «indígenas» as «As cinquentas sombras de Grey» como se fosse o opus magnum da humanidade. Os muitos peditórios procuram matar a fome do corpo, mas nunca conseguirão acabar com a pobreza de espírito.
Além da participação, receptividade e acolhimento destas iniciativas da Cáritas Portuguesa, são também tempos e espaços de encontros e desencontros, de solidariedade, de partilha, de relembrar amizades e reviver momentos sociais, profissionais e humanos.
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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