Construindo opiniões

César Cruz - Desassossego - Opinião © Capeia Arraiana

No palco da vida os dominantes exercem o seu poder. A opinião de todos é construída por alguns que usam o seu poder hierárquico e autorizado para legitimar as transgressões das regras do jogo. Figuras públicas que buscam um público ou figuras públicas ao serviço público?

Teatralizando - César Cruz - Capeia Arraiana

Teatralizando

O processo de concentração, de unificação, conduz à desapropriação e desqualificação do particular. Que o diga o sociólogo Bourdieu. Sem dúvida que a origem do Estado está intimamente associada ao monopólio do universal. Neste universo, a opinião pública encontra-se nas mãos de poucos agentes que ao defenderem o bem público se apropriam do mesmo. Na política nacional e nas politíquices locais é assim mesmo. A opinião oficial nunca é a opinião de todos. A opinião pública é tão-somente a opinião dos que são «dignos» de ter uma opinião. Quais as regras do jogo na política? Saber jogar com a regra do jogo. Saber transgredir as regras e universalizar isso como o habitual lícito e aceite por uma opinião pública construída.
Muitas vezes tenho falado em parábolas (e não estou a ser irónico). Mas por vezes é melhor assim. Só entende quem quer entender, ou quem procura perceber. Mas sem imagens literárias, é necessariamente importante afirmar que a opinião pública se constrói em duplas realidades. E quem tem o monopólio dessa regra do jogo é quem domina, quem tem acesso à influência, quem tem a autorização para manipular autorizadamente um rol de interesses. Manipula-se, transgride-se e isso é bem aceite, porque quem faz a regra é quem está no cargo mais elevado. Seja em Lisboa, seja onde for. E existe um perigo. Que a verdade dominante dos dominantes se torne a verdade de toda a gente. Nem que se criem leis, despachos. Nem que se crie um manto de influência para que o Zé, sim o Zé-povinho, aceite, como sua, a opinião dos que o dominam. É o universal de alguns a aglutinar a propriedade dos particulares.
O homem oficial e dominador é um ventríloquo que fala em nome do Estado e que teatraliza algo que não existe. A retórica de quem promete. De quem prometeu e nunca se cumpriu. É tempo de aceitarmos que o palco da nossa vida não pode ser composto por marionetas comandadas por mãos alheias. É tempo de apreender que além dessas mãos ainda existem outras mãos. Mãos que vivem na penumbra da escuridão, emitindo a sua opinião e moldando-a como única. Somos senhores do nosso destino. Sem teatralização. Sem promessas. Queremos apenas o nosso palco de volta, onde seremos as personagens principais. Únicos, marcantes e capazes de ter opinião esclarecida!
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«Desassossego», opinião de César Cruz

One Response to Construindo opiniões

  1. António Emídio diz:

    César :

    Uma imensa maioria da população portuguesa não tem a menor possibilidade de se fazer ouvir, e aquilo a que se chama opinião pública, é na realidade a opinião privada do poder económico, bancos, grandes empresas e multinacionais, do poder político, governantes, partidos políticos e homens com grande poder de influência em que ninguém votou, mas que dominam a cena política, e do poder mediático, os donos dos jornais e seus respectivos jornalistas.
    E a Democracia portuguesa tem este maldito vicio : usa a propaganda para justificar modos de conduta moralmente duvidosos dos seus governantes, então ultimamente…
    Está bem ilustrado o seu artigo César, porquê ? Porque a política é máscara e teatro !

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