As Andorinhas

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

«Uma andorinha não faz a primavera» e «por morrer uma andorinha não acaba a primavera», são duas citações proverbiais que remontam aos tempos de Aristóteles e que, neste caso, nos fazem relacionar andorinha com primavera. Elas estão por isso a chegar.

Andorinha voando

Andorinha voando

As andorinhas são aves migratórias que visitam o nosso país entre a primavera e o outono, altura em que se reproduzem. No final do verão, migram para zonas de clima mais quente, África e Médio Oriente onde permanecem durante o inverno.
A chegada das andorinhas é sempre bem recebida pelas pessoas pois isso quer significar que o tempo está a ficar mais ameno. No campo, as andorinhas sempre foram aves cuja protecção as pessoas se encarregavam de assegurar. Ninguém molestava as andorinhas, nem a criançada estragava os seus ninhos. Dizia-se inclusivamente que as andorinhas eram aves de Deus, sabe-se lá porquê.
São aves pequenas em que a plumagem é um misto de branco e preto, principalmente daquelas que visitam as zonas da Beira. É que, para além destas a que se chamam andorinhas dos beirais, existem muitas outras espécies de andorinhas em que a coloração das penas é diferente. De qualquer modo, a fisionomia é idêntica.
Nas áreas mais urbanas, as andorinhas fazem os ninhos na parte de baixo dos beirais dos telhados e são essencialmente feitos à base de lama que, depois de seca, confere uma consistência que lhe permite segurarem-se. Os ninhos são totalmente tapados apenas possuindo uma entrada da tamanho da ave. Nalguns casos como o da imagem, em que a parte de cima é o próprio beirado, o ninho é aberto na parte superior, fazendo uma espécie de fresta com o beirado.

Insaciáveis filhotes

Insaciáveis filhotes

Nas áreas rurais, as andorinhas fazem os ninhos, muitas vezes nas paredes dos poços destinados à captação de água para a rega dos campos. Recordo-me de ter achado estranho, na minha infância, que as andorinhas entrassem para dentro dos poços em pleno voo. Tratava-se de visitas ao ninho por norma construído nas paredes do poço, numa qualquer reentrância entre pedras.
As andorinhas têm um voo muito veloz e atlético. Na verdade, parece que as andorinhas em pleno voo escorregam pelo ar, parecendo autênticos golfinhos mas mais velozes. A sua velocidade média anda na ordem dos 50 Km/hora.
Cada postura de andorinhas atinge entre quatro a seis ovos, conduzindo por isso a que a reprodução apresente por norma quatro a cinco filhotes. O grau de sobrevivência de cada ninhada é elevado o que, associado à protecção natural que as populações lhe proporcionam, permitem que o número de indivíduos da espécie não esteja ameaçado. Por norma, durante o período que permanecem na Europa, reproduzem duas ninhadas o que contribui ainda mais para a dimensão da espécie.
A sua alimentação é quase exclusivamente efectuada à base de insectos que apanham em pleno voo. Quando se estão a alimentar voam com o bico aberto fazendo com que os insectos entrem naturalmente com o movimento. Faz-me lembra a forma como as baleias se alimentam. Será também pelo facto de comerem apenas insectos que são tão bem vistas pelos camponeses. No fundo ajudam a proteger as colheitas dos insectos. Cada andorinha come milhares de insectos por dia.
Diz-se que as andorinhas «adivinham» quando vai chover. Melhor: diz-se que quando as andorinhas voam baixo isto é perto do chão, vai chover.
Ao contrário do que muitas vezes acontece em ditos desta natureza, é mesmo verdade mas não por as andorinhas possuírem qualquer característica meteorológica. A verdade é que a haver meteorologista ele não seria a andorinha.
O que se passa na verdade e que quando o ar fica mais húmido os insectos saem de suas tocas para acasalar. Por outro lado quando a chuva está próxima, a pressão atmosférica diminuiu, o ar fica menos denso elas têm dificuldade de subir mais alto no céu e por outro lado os insectos concentram-se junto ao solo.
Com o apetite voraz que as andorinhas têm a que se associa o da sua prole, só lhes resta voar junto ao chão para mais facilmente apanharem os insectos.
Por norma voam de bico aberto, para facilitar a entrada dos insectos pelo simples movimento do voo.
Também para beberem água o fazem, muitas vezes com o bico aberto, traçando rasantes às superfícies dos rios, lagos e barragens.

Bebendo em pleno voo

Bebendo em pleno voo

Claro que as pessoas vêem mais facilmente as andorinhas do que os insectos e não têm duvidas que elas estão a voar mais baixo e por isso o dito popular. Mas como vimos se aqui há meteorologistas com instrumentos afinados não seriam as andorinhas mas sim os insectos. Ou melhor, nem umas nem outros, é apenas um fenómeno natural que, pelas características que possui, provoca nos insectos a reacção que acaba por conduzi-los a exporem-se e junto ao chão.
Tudo isso faz com que as andorinhas voem mais baixo, para, por uma questão de subsistência se alimentarem assim como aos filhotes. Claro que as pessoas vêem bem as andorinhas e por isso, para as pessoas, são elas que «adivinham» a chuva.
As andorinhas não são uma ave canora famosa. O seu canto, se de canto podemos falar, não é musicalmente rico nem melodioso. É mais um chilrear desconexo e musicalmente pobre, pouco intendível aos nossos ouvidos.
Ouça o seu chilrear…

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Não se iluda com a melodia que em fundo se ouve. Essa não é produzida pelas andorinhas mas sim por um melro e, como se percebe, quando ouvida com atenção é musicalmente muito mais rica.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

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