A viúva de um mineiro

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Num princípio de tarde de uma segunda-feira fria e ventosa, estava-se bem na mesa soalheira de um Café de Aldeia de Joanes, a recordar os cento e cinquenta e oito anos de nascimento de Baden Powell, o Fundador do Movimento Mundial Escutista, festejados por diversos Agrupamentos no domingo anterior.

Embora residente em Aldeia de Joanes (foto),  nasceu e viveu em S. Jorge da Beira

Embora residente em Aldeia de Joanes (foto), nasceu e viveu em S. Jorge da Beira

O Agrupamento 1335 do CNE de Aldeia de Joanes celebrava também aquela efeméride em Alpedrinha, assim como o recém-empossado Cardeal de Lisboa, D. Manuel Clemente, igualmente escuteiro, na companhia de dois mil jovens na Póvoa de Santa Iria, concelho de Vila Franca de Xira.
Envolvidos nesta efeméride, aproximou-se da nossa mesa uma «caminheira da vida», que pediu para se sentar junto de nós, uma vez que sempre beneficiava do calor do sol. Observei-a e vi de imediato, nessa senhora já idosa, a imagem da minha saudosa mãe, tais eram as afinidades físicas. A senhora respirava juventude por todos os poros e apresentava um bom sentido de humor.
Embora residente em Aldeia de Joanes, na casa de um filho, nasceu e viveu muitos anos em S. Jorge da Beira. Alguém do grupo lhe lembrou o nome antigo de Cebola, recebendo logo resposta elucidativa: «a cebola vai sempre à mesa do rei».
O pai era carvoeiro e mineiro, ia à Covilhã montado num cavalo, a fim de receber os dinheiros para a administração pagar os salários. Conta-se que fizera um pacto com «um cireneu salteador», que se dedicava a assaltos esporádicos na zona, porque ainda não havia bancos nessa época e não havia concorrência. Mais tarde este Robim dos Bosques, fui morto pelas autoridades numa velha azenha, onde se tinha refugiado, perto da Zona do Alcambar – Fundão. A nossa Mulher não chegou a conhecer o pai, ficou órfã muito novinha, juntamente com nove irmãos.
Nesta situação valeu-lhes a caridade e solidariedade de muitas pessoas de S. Jorge da Beira, nas matanças sempre lhes davam uns pedaços de carne e nos lagares sempre recebiam algumas gotas de azeite.
Sempre que possível, pegavam nas sacholas e iam para o couto mineiro, na procura de pedras com algum volfrâmio, que vendiam clandestinamente: «por semana não chegávamos a realizar vinte e cinco tostões, em euros seria hoje pouco mais do que um cêntimo. Muitas vezes tínhamos de fugir das autoridades que nos perseguiam e esconder-nos nas matas e silvados». Havia as apanhas que vendiam à empresa e a outra «classe», os candongueiros, que vendiam às escondidas.
A sua escola primária consistiu em guardar cabras no Vale da Cerdeira, uma pequena povoação anexa a São Jorge da Beira, nunca tendo possibilidades de aprender a ler ou a escrever.
Aos vinte anos, casou com um mineiro que desde os dez anos transportava o molho das brocas para o interior da mina. Mais tarde começou na exploração e, aos cinquenta e três, foi atingido pela doença da silicose, que o levou à sepultura: «Era tão pobre como eu, juntou-se a fome com a vontade de comer. Mas éramos muito felizes, aos domingos e nas festas de S. Jorge da Beira, lá estávamos a dar um passo de dança, ao som de uma aparelhagem. Divertíamo-nos à nossa maneira, inocentes, sem maldade. Agora já ninguém sabe divertir-se nem bailar.»
Salienta a apreciação a um Pároco de S. Jorge da Beira, Padre José Joaquim Geada Pinto, de que o seu filho foi sacristão. Na opinião de um elemento do Grupo Coral da Sé, ali presente, além de salientar “ os dotes musicais daquele clérigo, era um daqueles poucos pastores que cheirava o rebanho, que estava nas suas proximidades, nas suas cercanias, como pede no tempo presente o Papa Francisco.”
Também o marido colaborou no palco do Salão Paroquial, situado nas partes fundeiras na Igreja, para a realização de atividades diversas.
Os tempos de doença do marido foram muito difíceis, intermináveis visitas ao velho Hospital da Covilhã e derretimento de todas as economias. Não houve hortas em S. Jorge da Beira onde a nossa Mulher não tivesse trabalhado para tentar salvar o marido, acrescentando alguns trocos à miserável reforma do Homem.
Filha de mineiro, Mulher de mineiro, orgulha-se por ainda guardar o cartão de identidade profissional do marido. Esta Mulher de grande dignidade despediu-se de nós assim:
“ Sempre fui pobre, pobre em tudo, até no nome – Emília Jesus-, apenas duas palavras… mas chegaram para ser feliz.”
Todas as pessoas idosas têm história importantes e são reservas de sabedoria na nossa sociedade.
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

One Response to A viúva de um mineiro

  1. Rui Alberto Antunes Pereira diz:

    O meu comentário acerca deste artigo do meu Irmão António Fernandes tenho realmente ser sincero é sem dúvida alguma uma verdadeira realidade porque a D. Emília de Jesus fui uma verdadeira mulher e quem a recorda com muita saudade, ela era sem dúvida alguma com uma verdadeira mulher de uma autêntica sabedoria só quem conviva com ela é que via como ela tinha uma verdadeira relação de : Amizade,Carinho,Afecto,Consideração,Alegria, Saúde,
    Estima,com todas as pessoas que ela se relacionavam diariamente eram sem dúvida alguma as sinceras e verdadeiras qualidades que possuía. Por tudo isto Bem-Haja. Recordo com imensa saudade esta irmã que já se encontra na Casa do Pai, Paz a sua Alma.

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