Aldeia Nova do Cabo – um trabalhador dos poços

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Quando se está internado num hospital nada melhor que a visita de um familiar ou amigo. Assim aconteceu há dias, num fim de tarde. É uma das obras de misericórdia, visitar os doentes.

Os doentes num hospital apreciam a nossa amizade

Os doentes num hospital apreciam a nossa amizade

O visitante entrou numa enfermaria com seis doentes, onde está a recuperar um familiar, e, é alertado para a presença de um companheiro internado, mutuamente conhecido. «Olha, está além o Senhor Campanha, é lá dos nossos lados, já não te lembras dele?»
O visitante logo o descobriu e juntou-se à sua cadeira de rodas cumprimentando-o com afetividade. Os mais idosos, doentes, num lar, num hospital, em casa, apreciam a nossa amizade e o nosso convívio.
A realização da visita é uma oportunidade de dar apoio, ânimo, ouvi-los quando têm necessidade de desabafar, de lhes fazer esquecer as mazelas e enaltecer, valorizar, as obras do seu passado de vida familiar, social e laboral.
Nasceu há 88 anos na Aldeia Nova do Cabo, na Quinta da Ladeira, onde os seus pais trabalhavam. Naquela época nascia-se e morria-se nas habitações, a maior parte das vezes com inúmeras dificuldades médicas, sanitárias, económicas e outras.
Andou uns dias na Escola Primária, mas ao presenciar uma grande sova, que o professor deu ao irmão mais velho, fugiu de lá e nunca mais apareceu, nunca mais se sentou numa daquelas carteiras de madeira, com os tinteiros encaixados e uma rasura para se colocar os lápis e as canetas de aparo.
Seguiu-se a tropa em Lisboa, já não se lembra onde era o quartel, mas sabe que foi impedido do comandante da unidade, que o desarranchou, e beneficiava de um estatuto militar privilegiado. Fazia as compras, os recados e outros serviços e a família do seu chefe militar, proporcionava muitas vezes almoçar e jantar, o rancho era melhor que o do quartel.
Seguiu-se a vida profissional e, apesar de nunca ter abandonada as tarefas agrícolas, conseguiu trabalho em Aldeia de Joanes, na Firma Lambelho e Ramos, Lda. Aqui trabalhou durante quinze anos, em atividades na construção de estradas, com um instrumento de trabalho nada fácil de manobrar, o martelo perfurador, que exigia muito desgaste físico. Um ano, fizeram exceção, não lhe deram aumento, não explicando as razões do patronato, e conseguiu justiça através do Tribunal de Trabalho da Covilhã. «Claro que não fiquei com ódios e rancores, aconteceu que repuseram o aumento dos meus companheiros de trabalho».
Da França vinham ventos de que se ganhava muito bem, outras regalias sociais e seguiu os caminhos da emigração e durante alguns anos conseguiu juntar um bom pecúlio.
De regresso a Portugal, começou a trabalhar por conta própria, na abertura de poços e formatação das suas minas. As suas obras são todas ajustadas. Nunca perdeu dinheiro. Aqui fala com um brilho de alegria nos olhos. Aprendeu à sua custa, com trabalho, experiência e dedicação, a suas grandes escolas. Fez poços com quarenta metros em cantaria na região do Fundão, da Guarda e Vilar Formoso. Nunca teve medo de trabalhar naqueles corredores escuros. O seu fogo era sempre lançado para cima, nunca em contato com humidades. Quanto mais dura era a pedra, mais gostava dela, porque mais dinheiro ganhava.
Na Quinta do Vale Salgueiro fez uma mina em cantaria e o patrão prometeu-lhe um fato pelo trabalho de arte realizado, mas ainda está à espera do referido fato e já lá vão uns bons anos. A fazenda nunca chegou ao alfaiate.
Também trabalhou na Câmara Municipal do Fundão e alguma água que as gentes fundanenses bebem são fruto da sua especialidade laboral.
Viveu com uma esposa que era um anjo, mas enviuvou e como um homem sem uma mulher não anda bem, arranjou nova companheira que lhe traça os maiores elogios.
Tem muitas saudades da sua terra natal – Aldeia Nova do Cabo -, das suas gentes e da Festa de Nossa Senhora do Pé da Cruz, da qual foi mordomo durante alguns anos. Tem muita gente amiga em Aldeia de Joanes, «conheço lá toda a gente…as esposas dos meus ex-patrões, Elisa Alves Nogueira, Adélia Sousa Carvalho, quando levava lenha para as suas residências, tinham sempre a mesa da cozinha preparada e recheada de alimentos e bom vinho. Maria dos Santos Marques, que deu muito pão a quem necessitava, o meu companheiro Joaquim “Cachapim”». Diz que a lista de pessoas amigas é enorme.
José Dionísio Campanha Leitão, vive em Dornelas do Zêzere, nas margens do Rio com o mesmo nome, mas com o pensamento em regressar às suas origens, onde ainda tem habitação e terrenos agrícolas à espera de braços para os cultivar.
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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