Quaresma – Tempo das «Cacadas»

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CASTELEIRO :: :: No Casteleiro as «cacadas» assumiam-se, durante o tempo quaresmal, como momentos privilegiados para a sátira jocosa feita por rapazes ou mesmos por homens maduros, normalmente a elementos do sexo oposto.

Cacadas - Casteleiro - Sabugal - Capeia Arraiana

Cacadas no Casteleiro

Sobre a velha cómoda escurecida pelo tempo e pelo fumo da lareira que teimosamente cirandava por toda a cozinha, jazia agora respeitosamente calado, o rádio que a vizinha Aurora, um dia tinha comprado numa das raras viagens à capital, na precisa altura em que foi avó pela primeira vez e, mal parecia não ir ver o rebento que havia de dar continuidade à sua geração.
Até à Ressurreição Pascal, o folhetim emitido implacavelmente à hora da ceia, a rondar as sete e meia da noite, ficaria impedido de entrar em casa e ocupar um pouco do serão dos corpos, já cansados, após mais uma jornada a tratar da vinha e da terra, que serviria de berço aconchegado às novíssimas batatas da semente, compradas ao ti Vitorino Varela, morador na terra fria das «Pladas», lá para os lados do Sabugal.
Como cobertura, o velho rádio que tanto tempo demorava para aquecer as sua válvulas e emitir aquele ruído inconfundível que se ouvia ao longe, tinha um bonito pano de linho cru, com os cantos altamente melhorados com uma renda, feita com agulha e linha apropriada, que lhe dava um ar imaculado, pelo menos no primeiro dia em que foi colocado!
Como não era sexta-feira quaresmal, a panela de ferro, já com uma perna pensa…porque os anos não perdoam, mantinha uma lenta fervura para que a farinheira e a bucheira, da anterior matança, pudessem cozer sem rebentar e fazer uma bela fatia sobre os apetitosos grelos subtraídos ao nabal do «chão da estrada».
Que belo manjar! – disse, ainda de boca cheia, o chefe de família. Enquanto a Rosa ajeitava no prato as batatas, os grelos e um pouco de bucheira ao irmão mais novo, sim porque o mais velho tinha ido a salto até terras de França, numa noite fria de dezembro passado. A mãe, a última a sentar-se à mesa, fazia o sinal da cruz, dizia uma breve oração de agradecimento a Deus por mais uma refeição, e só depois começara a comer.
O silêncio era natural, tão natural como os estômagos, àquela hora, estarem ávidos de uma boa refeição, acabadinha de fazer!
A cozinha ficava mesmo ao cimo das altas escadas feitas de robustas tábuas de carvalho, cortados no tempo certo para poderem perdurar anos e anos. Sem dúvida que este era o cenário ideal para o Bernardo e seus amigos pregarem um valente susto à Rosa, sua namorada.
E foi naquela noite, que não era sexta-feira de quaresma, num misto de coragem e medo à mistura, Bernardo subiu as escadas, silenciosamente, levando às costas um pesado garrafão de vidro, já partido, empalhado com vergas de salgueiro da ribeira, já ressequidas pelo tempo.
Mesmo do cimo da escada e com um forte balanço de braços, atirou o garrafão ao chão, fazendo-o rebolar pelo balcão a baixo, provocando um barulho demolidor, quão pilar da casa acabasse de ruir. Ao mesmo tempo, e numa correria desmedida o bando de provocadores – autores desta monumental «cacada» – sumiu-se para bem longe da casa evitando, assim, serem vistos pelo dono da casa, que não era para festas, muito menos dentro da sua própria cerca.
Com a Ressureição, o rádio depois de bem aquecer e da ti Aurora lhe retirar o pano de linho cru, agora já muito amarelecido, voltava a tocar, no preciso momento em que o senhor prior mandava retirar os panos dos rostos santificados que ocupavam lugar especial nos vários altares da igreja da terra.

Notas
1) Nas «cacadas» com maldade utilizavam-se cacos sujos, cântaros de lata ou barro já velhos e com porcaria lá dentro.
2) Nas «cacadas» a pessoas amigas ou namoradas utilizavam-se os cântaros ou cestas velhas com nozes no seu interior.
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«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

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