Os serões de antanho

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CASTELEIRO :: :: Tudo começava depois da ceia, sim porque a ceia era a refeição da noite, após mais um dia cansativo nas lides do campo. Os vizinhos reuniam-se nas casas uns dos outros à volta da lareira nas frias noites de Inverno.

Panela de ferro ao lume - Capeia Arraiana

Enquanto os troncos se transformavam em brasas
as panelas de ferro não tardavam a servir a esperada ceia

As noites eram longas e escuras como o breu, às vezes ruidosas, não pelo barulho da televisão que não havia, mas pelas rajadas do vento gélido vindo de Espanha, pelo piar das corujas que traziam mau augúrio às famílias supersticiosas; pelo latir dos cães, que entoavam longos gemidos pelas ruas apertadas da aldeia; pelo ranger das portas das casas velhas e abandonadas, que batiam com o vento; pela escuridão silenciosa dos becos e das entradas dos pátios sombrios e medonhos, como a angústia que nos maus momentos sempre ataca as famílias de vida mais difícil.
Os medos fictícios que a escuridão e as longas conversas à lareira ajudam a perpetuar no tempo, ao longo de várias gerações, alicerçados em patranhas inventadas, lobisomens, mulas sem cabeça, almas de outro mundo e histórias afins, faziam com que a criançada fosse para a cama com o coração «tefetefe» e mergulhassem a cabeça nas pesadas «mantas de papa», fabricadas numa terrinha ali para os lados da cidade da Guarda.
Para a trama ser completa não faltavam os locais concretos, com fama de aparecimentos macabros, assumindo especial destaque a denominada «Quelha do Medo», vá lá saber-se porquê…
Sobre a serra D’Ópa, velha guardiã dos castros do Casteleiro, contava-se que nas suas encostas viviam mouras encantadas, princesas que fugiram dos seus palácios e dos seus países, e vieram ali esconder-se. Com elas transportaram os seus tesouros: pedras preciosas de todas as cores, correntes de ouro, e vestidos lindamente bordados com brilhantes. Dizia-se ainda, que nas noites de lua cheia, perto da meia-noite as suas jóias brilhavam ainda mais. Parecia o nascer do Sol naquelas encostas! Depois, lentamente, tudo ia desaparecendo e as lindas mouras adormeciam… em silêncio.
Conta quem por ali andou a expurgar e lavar a terra, à procura das preciosas pedras que ajudariam a Alemanha a ganhar a guerra, nunca viu princesa alguma, muito menos algo da sua riqueza que diziam bem guardar.
Por entre estas e outras histórias de encantar e amedrontar, as mulheres fiavam a lã, o linho ou remendavam e faziam algumas roupas como camisolas de lã, meias e outras. Os homens entretinham-se com o tradicional jogo de cartas, falavam do tempo, das colheitas ou das sementeiras e muitas vezes planeavam-se trabalhos para o dia seguinte. As raparigas passavam o tempo a fazer renda ou a bordar, a pensar no enxoval, enquanto ao lume se assavam umas castanhas. Entretanto as crianças, já cansadas, adormeciam ao calor das brasas já mortiças, da velha lareira de pedra, tingida pelo fumo dos muitos invernos já passados. Chegada a hora de ir embora, cada um pegava nos seus agasalhos despedindo-se com votos de boa noite e com o compromisso seguro de um até amanhã reconfortante.

Notas:
(1) Ouvi contar a gente deste tempo que até à década de sessenta era frequente as pessoas pedirem lume, algumas brasas, a casa dos vizinhos para poderem acender a sua própria fogueira. Era um gesto simples, mas de muita valia, pois todos precisavam da fogueira para cozinharem os alimentos e para se aquecerem.
(2) Passados alguns dias sobre a cozedura, por vezes acabava-se o pão, normalmente a tradicional broa de farinha de milho ou o pão feito da farinha de centeio. Nestas ocasiões, iam pedir por favor, um pão emprestado para se remediarem. Mais tarde, quando coziam a sua fornada, retribuíam-no. Ninguém recusava um pão, ou apenas parte dele, para ajudar os vizinhos. Hoje são eles, mas amanhã poderemos ser nós, diziam.
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«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

2 Responses to Os serões de antanho

  1. JFernandes diz:

    Caro JLGouveia:
    Tudo, em terras por vezes tão afastadas, é tão semelhante que eu o escreveria da mesma forma.
    Gostei e principalmente do conteúdo das duas notas finais que nos transportam para um ambiente de entreajuda comunitária que muito aprecio, pois também o vivi.
    Um abraço
    JFernandes

    • Joaquim Luís Gouveia diz:

      Boa noite meu caro JFernandes!

      Sem dúvida que os serões de antigamente constituíam um elemento de reunião da família, de amigos e vizinhos. O sentido de uma vida comunitária era bem visível através da entreajuda nas várias tarefas agrícolas ou na troca de produtos alimentares.
      Registo que no Casteleiro era normal alguém emprestar uma galinha «choca» à vizinha, com a finalidade de lhe chocar uma dúzia de ovos e daí nascer uma ninhada de pintainhos…ou ainda, emprestar o «coelho da semente» para «cobrir» a coelha que andasse «saída» e ,daí resultar uma nova criação.

      É esta forma de vida, pura e genuína, que nos ajuda a compreender melhor a vida do nosso povo, da nossa Beira.

      Muito obrigado pelas suas palavras JFernandes.

      Abraço

      JGouveia

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