Escrever para resistir, alertar e derrubar

Joaquim Tenreira Martins - Opinião - Capeia Arraiana

No passado dois de Fevereiro, dia de Nossa Senhora das Candeias (La Chandeleur) a Universidade Católica de Louvaina concedeu o título de Doutor Honoris Causa, a três personalidades que, com os seus escritos, têm trabalhado para poder dar um outro rosto ao mundo em que vivemos e que têm criado importantes marcos para o poder tornar melhor. São elas: o escritor sul-africano André Brink, a dramaturga e militante feminista norte-americana Eve Ensler e o antigo jornalista de guerra e actual ensaísta e editor francês Jean-Claude Guillebaud.

Jean-Claude Guillebaud - André Brink - Eve Ensler - Université Catholique Louvain - Capeia Arraiana

Jean-Claude Guillebaud, André Brink e Eve Ensler
Doutores Honoris Causa pela Université Catholique de Louvain (Bélgica)

Se o traço comum entre estas três personalidades é serem escritores, o que os irmana ainda mais é serem escritores comprometidos com causas que têm arduamente defendido ao longo das suas carreiras literárias, tendo sido expostos ao perigo das suas próprias vidas, em diversas circunstâncias.
A comunidade universitária quis acentuar, nos doutoramentos honoris causa desta promoção de 2015, o tema: escrever para resistir, escrever para alertar, escrever para derrubar.
Aqueles que assistiram à investidura destas personalidades, puderam dar-se conta da grandeza de alma e da elevação do espírito que anima estes escritores que têm utilizado a pena para afrontar demónios ancestrais ou muros intransponíveis, como o apartheid, a violentação das mulheres ou a luta por um mundo mais humano e mais justo.

André Brink
O primeiro laureado omitiu propositadamente as saudações protocolares iniciais às altas personalidades ali presentes para se dirigir directamente aos estudantes, os agentes da mudança do mundo de amanhã. André Brink encorajou-os para serem os actores comprometidos da mudança desta sociedade. Apontou o exemplo do ícone da mitologia grega – Antígona, a mulher-coragem – que enfrentou um rei tirano, para exortar o jovem público a procurar as respostas no confronto permanente com as questões que preocupam o mundo. Se já se conhecem as respostas não vale a pena lutar. É necessário continuar a colocar questões, mesmo na existência da evidência das respostas.
A sua obra literária é uma verdadeira Antígona ao poder branco da época anterior a Mandela, na Africa do Sul. Pôs a nu o sistema de exploração humana do apartheid. Também ele foi preso e as suas obras interditas no seu próprio país.

Eve Ensler
Foi comovedor ouvir a autora da peça de teatro, que já vi há alguns anos – O Monólogo da Vagina –, a escritora e militante feminista Eve Ensler! Esta Senhora, com letra maiúscula, se faz favor! dedica a sua vida a lutar pelas mulheres vítimas de violência sexual, ela que sofreu esta mesma humilhação quando, ainda jovem adolescente, foi vítima do mesmo suplício pelo seu próprio pai, com a anuência da mãe. Esta peça de teatro, escrita em 1996 já foi representada em 140 países e traduzida em 48 línguas. A sua escrita é para alertar, para derrubar barreiras, para quebrar tabus, romper o silêncio, parar com a violência às mulheres. Referiu que quando a peça de teatro passou na televisão americana há uma quinzena de anos nem sequer se podia mencionar o nome de vagina, enquanto que agora ouve-se e diz-se sem qualquer pejo. Também a legislação sobre a protecção da violência feita às mulheres está a mudar, mas refere que ainda há muito que fazer. É no Congo, onde a violação das mulheres tem sido uma autêntica arma de guerra, que esta militante tem feito um trabalho exemplar. Nesta República Democrática assola a guerra que já fez oito milhões de mortos, quase tantos como na Segunda Guerra Mundial e a maioria das vítimas são as mulheres, com o seu rol de violações, de escravaturas e sevícias sexuais.

Jean-Claude Guillebaud
O terceiro laureado dá-nos uma imagem de um homem tranquilo e de um personagem de muitos combates. Jean-Claude Guillebaud ficou satisfeito em ter recebido um doutoramento honoris causa, não tanto por ele, mas pelo pai que desejaria ardentemente vê-lo doutor, pois, em 1968, trocou a sua capa de doutorando na Sorbonne pela de correspondente de guerra no Biafra. Esteve no Vietnam e na ex-Jugoslávia. É um homem cheio de esperança e foi nas frentes de guerra que encontrou pessoas cheias de esperança e que não deveriam ter nenhuma razão para esperar. E, no entanto, é em Paris onde vive e onde não há guerras, nem falta nada que encontra o maior pessimismo.
No dia 7 de janeiro um pouco por toda a parte gritou-se «Eu sou charlie» e fez-se as honras aos lápis. Também um lápis foi entregue a cada participante como para fazer eco à liberdade de expressão, à liberdade de escrever como um modo de resistir, de alertar e de derrubar. Mesmo não estando de acordo com tudo, poderíamos afirmar como Voltaire: «Poderei não estar de acordo contigo, mas bater-me-ei para que tenhas o direito de o dizer.»

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p.s. Soubemos pelos jornais que André Brink faleceu no dia 6 de Fevereiro, no avião que o levava de Bruxelas à sua África do Sul, quatro dias depois de ter sido investido com o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade Católica de Lovaina. Apesar desta triste notícia, tenho o prazer de estar entre as últimas pessoas a tê-lo visto.
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«Pedaços de Fronteira», opinião de Joaquim Tenreira Martins

One Response to Escrever para resistir, alertar e derrubar

  1. António Emídio diz:

    Joaquim Tenreira :

    Obrigado por nos ter dado a conhecer estas três pessoas. Ao ler o artigo lembrei-me destas palavras de Edith Stein « O que importa é viver de maneira cada vez mais fiel e pura a vida que elegemos e oferecê-la aos seres com quem estamos vinculados ».

    António Emídio

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