Os ferros e os mármores de Maria Leal da Costa

Joaquim Tenreira Martins - Opinião - Capeia Arraiana

A exposição da escultora Maria Leal da Costa, a decorrer na Embaixada do Brasil em Bruxelas até ao dia cinco de Fevereiro, não deixa nenhum visitante indiferente. Com esta exposição, Maria Leal da Costa pretende escrever no mármore e no aço a sua maneira de ver o mundo. É que, como ela diz, «a pedra voa, flutua, corre, fala. É como as palavras» com as quais mencionamos as coisas deste mundo e do outro.

Maria Leal da Costa - Joaquim Tenreira Martins - Capeia Arraiana

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Maria Leal da Costa faz-se companheira de viagem de Camões, de Fernão Mendes Pinto e do actual grande escritor Gonçalo Tavares, e vai cinzelando no ferro e no mármore as suas divagações. E o público embarca com ela em caravelas, descobre a exuberância de outras paragens, a estranheza de outros rostos e, maravilhada, envia-nos cartas para nos contar as suas deambulações.
Os livros abriram-lhe as portas para voar para paragens desconhecidas! Mas voar é essencialmente o trabalho desta escultura, como para se transcender, se descobrir e nos revelar novos mundos, com os materiais da sua predileção. Com o seu corpo franzino, debate-se com a matéria rija, numa ascese permanente para nos transmitir o belo, o inimaginável que nos extasia, nos comove e nos transporta para um caminhar pleno de descobertas sem fim.
É também nos livros que encontra boa parte da sua inspiração, como para nos mostrar que eles são uma janela aberta para o mundo. E é este mundo que Maria Leal da Costa quer penetrar até ao âmago para o contemplar, mas também para no-lo transmitir e para o desmistificar e nos fazer a pedagogia de um planeta frágil mas sempre aberto para todos nós. E é quase a obsessão desta escultora: criar mundos, mapa-mundos, esferas armilares com aços que se entrelaçam, umas esféricas, outras abertas, inacabadas ou fragmentadas, como para nos sugerir um universo diversificado, multifacetado, aberto a todas as correntes de pensamento e acolhedor para com todas as raças desta terra em que vivemos.
É na calma planície alentejana, no seu Marvão adoptivo, que Maria Leal da Costa esculpe o seu mundo, em face da fronteira estremenha espanhola. Mas fronteiras é o que Maria não teme, passando da pintura à escultura, rasgando o aço, martelando-o para depois melhor acolher o mármore branco onde embarcaremos para sulcarmos outros mundos, passando pelos bancos das bibliotecas de Amorabi ou de Alexandria, sentados como gulosos, a saborear um saber sem fronteiras.
Depois de ter peregrinado até aos confins da terra e de ter voado até mundos etéreos,
Maria Leal da Costa quis que assentássemos os pés na terra, e apresenta-nos uma criação inédita de uma verdadeira biblioteca esculpida nos materiais que lhe são queridos, em ferro e mármore, exibida no agradável espaço cultural da Embaixada do Brasil, em Bruxelas.
Cada livro é uma viagem que começa, um rosto a incitar o olhar, uma curiosidade para descobrir, um encanto que nos transporta para ouvir a ressonância de um mundo que desconhecemos e onde pretendemos penetrar.
Nesta biblioteca, Maria Leal da Costa sugere em cada livro ao leitor-observador que enverede para o espaço infinito dos seus sonhos, para a livre imaginação, para as aventuras misteriosas e, nestas viagens, fica-nos sempre a sensação de sermos todos caminheiros errantes.

Maria leal da Costa nasceu em Lisboa em 1964. Seguiu os cursos de escultura na Escola de Belas Artes de Lisboa e expõe o seu trabalho desde 1994. Trabalho e vive na Quinta do Barrieiro, em Marvão, desde 1999.
As suas obras fazem parte de numerosas colecções públicas e privadas em Portugal e no estrangeiro: Bélgica, Holanda, Espanha, China, estados Unidos, Lituânia, Itália…
No final de 2014 foi distinguida com o Prémio do Salão Anual da Sociedade Nacional de Belas-Artes pela obra «Correntes de Água», apresentada numa exposição com obras de 173 artistas.

A mostra «Leituras Líticas» estará patente em Bruxelas até 5 de fevereiro, com o apoio da Livraria Orfeu (Bruxelas), do Instituto Camões e da Embaixada de Portugal na Bélgica.
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«Pedaços de Fronteira», opinião de Joaquim Tenreira Martins

2 Responses to Os ferros e os mármores de Maria Leal da Costa

  1. Alberto M L Pachê diz:

    Quim Zé, parabéns pela riqueza expressiva do texto que aqui nos deixas sobre a obra da escultora Maria Leal da Costa
    .Fiquei com muita curiosidade em conhecer melhor os trabalhos da artista e daqui envio, um convite para expor na Casa do Concelho do Sabugal,em Lisboa,assim a Maria Leal esteja interessada na nossa proposta.Um Abraço.

  2. Querido Joaquim, muito muito obrigada por este artigo, está lindo, dá mais inspiração ao ler, até breve, Maria Leal da Costa

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