Viagens que nos marcam

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CASTELEIRO :: :: A viagem do Casteleiro até ao Colégio do Sabugal era longa, persistentemente longa, como os dezassete mil metros que separam estas duas localidades.

Autocarro da Viúva Monteiro - Joaquim Gouveia (Foto: D.R.)

«Carrêra dos estudantes» da Viúva Monteiro – Joaquim Gouveia (Foto: D.R.)

Era no pico do Inverno que as dolorosas manhãs de janeiro deixavam as suas piores marcas nos frágeis e tenros corpos dos estudantes, que se deslocavam à vila para a sua jornada diária, onde o saber passava pelo reconhecido Colégio do Sabugal, para muitos Colégio do Dr. Diamantino.
Os bolsos protegiam as mãos, ainda pequenas, daquelas malvadas frieiras que, ao longo do Inverno, dilatavam os dedos impedindo de escrever ou mesmo jogar ao berlinde ou ao jogo do anel, este praticado pelas meninas.
Às sete em ponto, ainda noite cerrada, o ti Júlio Triste (que Deus o tenha!) em pleno terreiro de São Francisco fazia a manobra da já velha «carrêra», para aí iniciar mais uma viagem até ao Colégio do Sabugal, passando pelo Terreiro das Bruxas, Santo Estêvão, Alagoas e Amiais, preenchendo todos os lugares, ultrapassando sempre a lotação que legalmente um dia, já longínquo, lhe tinha sido atribuída.
Para o desconforto desmesurado desta aventura a que chamavam «viagem», muito contribuíam as largas frestas que as janelas exibiam, a juntar às portas-de-fole cujas borrachas de vedação já não existiam há muito.
Vencidas as dificuldades do percurso, a velhinha «camioneta da carrêra» aproximava-se do Castelo das Cinco Quinas, único em Portugal e do soberbo rio Côa – habitat de excelência para o desenvolvimento de abundantes cardumes de trutas. As suas margens, majestosamente brancas, exibiam plátanos e amieiros cheios de pingentes de água gelada – sincelo – expoente máximo do rigor do inverno.
Mas os dias tornavam-se grandes, excessivamente grandes! O desconforto das salas de aulas, em que nem o calor humano superava as baixas temperaturas ali sentidas, e os «campos de jogos» térreos e enlameados, situados mesmo atrás do Colégio, tornavam insuportável esta longa estação do ano.
Com a noite já instalada e o relógio a marcar as sete horas fechavam-se as portas do colégio e, com um pouco de sorte, não tardaria a chegar o ti Júlio Triste com a sua «princesinha», depois de um dia a dar mil voltas àquele enorme volante. Também para ele o final de mais um dia de trabalho estava a chegar, sem antes os seus «passageiros de estimação» lhe fazerem mais uma partida.
De regresso a casa, na penosa subida para os Amiais, em que a «carrêra dos estudantes» penosamente se arrastava, estudantes ainda miúdos, saiam pela porta de trás e em passo não muito apressado caminhavam a seu lado, acabando por entrar pela porta da frente, pondo os cabelos em pé e esgotando a paciência de quem tudo fazia para chegar de bem consigo, mas, também, com a valiosa mercadoria que transportava.
Estou certo que muitos dos leitores que pacientemente leram esta crónica saberão muito bem do que estou a falar. Sim, porque foi graças a esta velha «carrêra dos estudantes» da Viúva Monteiro (sob orientação na altura, do Sr. Alcino e Sr. Luís, a quem pagávamos as mensalidades) e às gélidas salas de aulas do Colégio do Dr. Diamantino, que muitos de nós tivemos acesso a outras oportunidades.
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«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

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