Pelourinhos em Terras de Riba Côa (32)

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

:: :: GUILHEIRO :: :: – Ao conceder forais a determinadas aldeias, as ordens militares, os senhores feudais ou o Rei reconheciam a sua importância para a defesa ou consolidação do território nacional. No caso de Guilheiro o foral foi-lhe dado por D. Sancha Vermuiz e o objectivo foi a consolidação do povoamento.

Igreja Matriz Guilheiro - Trancoso - José Fernandes - Capeia Arraiana

Igreja Matriz de Guilheiro – Trancoso

Guilheiro é actualmente (2014) uma freguesia do concelho de Trancoso, localizada na sua parte mais a noroeste. Tanto a noroeste que entra em terras de Sernancelhe, formando o exclave de Trancoso.
A área desta freguesia constitui um exclave do concelho de Trancoso, tornando o Município de Trancoso territorialmente descontinuo e estendendo essa descontinuidade ao distrito da Guarda.
De facto, a freguesia de Guilheiro está separada do corpo principal do município de Trancoso por uma estreita e comprida faixa de território pertencente à freguesia de Arnas (concelho de Sernancelhe), com poucas dezenas de metros na sua zona mais estreita, coloquialmente designada «Manga» pela população local. Faz ainda fronteira com as freguesias de Sarzeda (concelho de Sernancelhe), Antas e Beselga (ambas do concelho de Penedono), todas do distrito de Viseu, o que “fecha” o enclave.

Guilheiro no Município de Trancoso

Guilheiro no Município de Trancoso

No território nacional não existem muitas situações deste tipo. Aliás, este tipo de situação, em que um município não tem o território continuo e possui dentro do território de outro uma parcela é naturalmente uma situação que terá de ter uma explicação, pois não é normal.
Foi vila e sede de concelho, com uma só freguesia, desde 1251 até ao inicio do século XIX. O foral foi dado a Guilheiro por D. Sancha Vermuiz.
Foi cabeça de um viscondado que D. Pedro II deu a Pedro Jaques de Magalhães depois de este ter vencido a batalha de Castelo Rodrigo.
Apesar de Guilheiro ter sido um concelho medieval com importância, o brasão da freguesia que agora a localidade é não reflete esse passado municipal.
Acredito que quem em Guilheiro propôs este tipo de heráldica está a interpretar correctamente a lei que estabelece a atribuição de brasões de armas às autarquias locais. É que, ao contrário de muitas outras, esta freguesia, em 2000 propôs a atribuição de um brasão com 3 torres prateadas, característico das freguesias e não com 4 característico dos municípios.
A maior parte dos municípios medievais que entretanto foram extintos, continuam a fazer incluir nos seus brasões as 4 torres características dos Municípios, quando na verdade hoje são apenas freguesias. Essa situação tem sido tolerada ao longo do tempo, embora me pareça que deveria ser corrigida.

Brasão de Guilheiro

Brasão de Guilheiro

O brasão da freguesia de guilheiro possui 4 elementos caracterizadores daquele território: A cor vermelha do brasão que era utilizada pela ordem de Malta; O pelourinho, relativo à autonomia municipal que teve; A cruz de malta, refletora da importância que aquela Ordem tinha na zona e por último, a folha de castanheiro, que pretende traduzir a importância que a Castanha tinha e tem naquela freguesia.

Pelourinho de Guilheiro

Pelourinho de Guilheiro

Como concelho que foi, Guilheiro possuía o seu pelourinho. O pelourinho de Guilheiro terá sido erigido em 1559 como pode verificar-se pela data gravada no soco da estrutura, muito embora o foral lhe tenha sido atribuído em 1251.
O facto de este pelourinho estar encimado por uma cruz em lugar do habitual capitel poderia conduzir-nos a considerá-lo um cruzeiro. No entanto isso não corresponderia às características dos cruzeiros. A cruz não é da mesma altura do resto do monumento. A cruz encima este monumento provavelmente pela grande influência que a ordem de Malta tinha nesta região.
O pelourinho foi classificado imóvel de interesse público (aqui).
Este pelourinho faz parte do inventário elaborado pela Academia Nacional de Belas Artes em 1935 (aqui).
Com a reforma administrativa ocorrida em 2013, a freguesia de Guilheiro manteve o seu território, continuando a ser freguesia.
Visitar Guilheiro é continuar a circular no Município de Trancoso depois de ter atravessado Sernancelhe. É uma zona em que os soutos de castanheiros, muitos deles centenários, dão à paisagem um colorido único principalmente no outono quando folhas e ouriços enchem o chão. Vamos a Guilheiro no S. Martinho e compremos castanhas cuja qualidade nada tem a ver com a daquelas que estamos habituados a ver nos supermercados citadinos.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

jfernandes1952@gmail.com

One Response to Pelourinhos em Terras de Riba Côa (32)

  1. Muitos parabéns pelo seu post e como Guilheirense o meu muito obrigado.

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