O presépio da Igreja

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CASTELEIRO :: :: Longe das estrelas brilhantes e da luz feérica que, hoje em dia, dão cor e magia aos emblemáticos centros comerciais, lá na aldeia ia tomando forma o tradicional presépio da igreja.

Presépio da Igreja do Casteleiro - Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana

Presépio na Igreja do Casteleiro (Sabugal)

Na semana que antecedia a noite de Natal, a criançada da catequese andava numa agitação desmedida. Os muros do «Alvarcão» eram cuidadosamente guardados, pois a camada de musgo que os revestia haveria de tornar o presépio da igreja o mais bonito de todo o Casteleiro.
O senhor prior orientava os trabalhos escolhendo os locais exatos onde as figuras de barro ganhariam vida e poder, em prol da história milenar que se repete a 25 de dezembro.
A cabana feita de cortiça em forma arredondada protegia, do gélido frio, as figuras de José e Maria, aquecidos pelo bafo quente, emergido das narinas ofegantes da vaca e do burro. Bem ao centro, João Ruas posicionava, cuidadosamente, o berço feito de palhinhas de centeio, prontinho a receber o Menino na noite mágica de Natal.
O cenário ia ganhando forma!
No fundo da caixa de papelão esverdeada, marcas da humidade e do bolor que a sacristia exibia com abundância, encontravam-se as ovelhinhas, muito bem enroladas num amarelecido pano de linho, que uma fina senhora da aldeia tinha oferecido ao senhor padre para bem proteger as figuras do presépio. Não menos acauteladas estavam as grades de madeira, peças indispensáveis para formar o bardo onde as ovelhas repousariam depois de um dia de farto repasto na encosta verdejante, sobranceira ao moinho, movido a água e onde o moleiro transformava os grãos de centeio em alva farinha, indispensável na noite da consoada.
As grades tinham sido feitas pelo avô do Raúl numa noite ao serão, auxiliado pela sua navalhinha que, muito bem afiada, ia rasgando o seco pau de amieiro em pequenas lascas, transformando-o em tabuinhas de modo a tornar-se um aconchegado redil para as ovelhas que haveriam de dar o leite para ajudar a alimentar o Menino. Ficaram perfeitas!
Muito perto do bardo do rebanho estava o lustroso cão, grande companheiro e protetor destes animais e do pastor.
Num caminho feito de areia fina, rasgando o verde tapete de musgos, lá vinham os três Reis Magos que, guiados pela estrela, os havia de levar ao Redentor: Belchior, Gaspar e Baltasar.
Tão eloquente era a sua missão quão valiosos eram os presentes que transportavam: ouro, incenso e mirra.
Eram nestas figuras, que segundo a história vinham de muito longe, que a miudagem prendia o seu olhar, como que, algo de místico elas transportassem.
Agora que o presépio estava pronto era necessário esperar pela missa do dia de Natal, sim, porque a Missa do Galo, perdeu-se já há muitos anos, por entre a escassez de sacerdotes que paira por esse país fora.
Mas a noite de «todas as virtudes» demoraria a passar! Já com o cesto de verga cheio de filhoses, e depois da tradicional visita ao madeiro, que aquecia de uma forma especial o coração, mas também a cabeça, daqueles que em cantares desgarrados anunciavam o nascimento do tão desejado Menino, pequenos e graúdos eram vencidos pelo sono.
Com o nascer do novo dia, deixava a claro o manto branco de geada que cobria as couves dos quintais, mesmo junto à igreja.
O toque do sino da igreja fazia o chamamento.
Raúl, de cabelo aparadinho, com um marcado risco do lado esquerdo, ostentava umas pesadas botas, compradas no último mercado do Sabugal, mas que ele fazia questão de mostrar a todos os seus amigos. No bolso das calças guardava religiosamente uma moeda, de fraco valor, que sua mãe lhe tinha dado quando se preparavam para ir à missa, nesse dia tão especial.
A igreja estava diferente. Também Raúl estava diferente. Durante a cerimónia esteve sempre atento (não era normal…) aos movimentos do senhor padre e aos cânticos ao Menino Jesus, entoados pelas gargantas afinadas do coro da igreja.
Era neste momento de festa e, uma vez terminada a homilia que, coxia a cima, se formava a fila, mais ou menos ordenada, em que pequenos e graúdos se voluntariavam para beijar aquele que acabara de nascer, numa noite fria, numa pobre cabana, tal como o presépio cuidadosamente retratava.
Chegada a vez de Raúl, beijou delicadamente a perna de Menino Jesus, fez a vénia acompanhada do sinal da cruz, dirigindo-se para o presépio «comunitário» e depositando a moeda mais valiosa que alguma vez alguém lhe dera.
Agora tinha a certeza que, algo tão esperado, tinha acontecido!
Foi tão especial… tão especial que, passados tantos anos, a magia do Natal se repete!
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«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

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