Maria C. Ventura – uma pintora por terras do Sabugal

Adérito Tavares - Na Raia da Memória - © Capeia Arraiana (orelha)

A actual Direcção da Casa do Concelho do Sabugal incluiu no seu plano de actividades algumas iniciativas de carácter cultural, como por exemplo o lançamento de livros e a apresentação de exposições. Em tempos demasiado materialistas, nunca é de mais realçar a importância da cultura humanística, de que as artes plásticas são parte substancial.

Ponte de Sequeiros - Pintura de Maria C. Ventura

Castelo Cinco Quinas do Sabugal - Pintura de Maria C. Ventura - Capeia Arraiana Convento da Sacaparte em Alfaiates - Pintura de Maria C. Ventura - Capeia Arraiana
Casa dos Falcões em Sortelha - Pintura de Maria C. Ventura - Capeia Arraiana EIgreja da Misericórdia de Alfaiates - Pintura de Maria C. Ventura - Capeia Arraiana

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Ao longo de uma já muito longa carreira docente, conduzi dezenas de visitas de estudo de alunos a museus, exposições, palácios, cidades. E uma das minhas preocupações principais era ensinar os meus alunos a ver. Não apenas a olhar, mas a ver. Porque, tal como dizia o filósofo francês Bachelard, «as coisas devolvem-nos o que nelas procuramos; parecem-nos indiferentes porque as olhamos com um olhar indiferente».
Visitei com jovens de 16 ou 17 anos o Louvre, o Museu Britânico, o Prado. Aqueles que conhecem estes museus sabem que não é possível visitar museus desta dimensão e ver tudo. Tem que se seleccionar criteriosamente um número reduzido mas significativo de peças, traçando objectivos bem definidos, subordinados a uma determinada temática, e não demorar mais do que uma hora, ou hora e meia. E nunca em grandes e arrastados grupos, sonolentamente atrás de alguém que diz coisas que poucos ouvem, mostrando obras que poucos vêem. Muitos ainda hoje têm «alergia» a museus porque fizeram com eles visitas intermináveis, correndo tudo de lés-a-lés, em «rebanhos» passivos e rígidos.
O museu depósito solene e bafiento de «vestígios do passado» está morto. Os museus são mundos vivos, à espera que alguém os interrogue, mundos de formas, conteúdos, cores, técnicas e materiais que é preciso aprender a ver e a interpretar. O museu é um local de reflexão e de busca, de interrogação e de resposta, de observação e de dedução, onde o exercício das faculdades de observação se devem substituir às catadupas de informação sobre os autores e as suas obras.
Mas, tal como não se pode falar uma língua antes de a aprender, não se sabe visitar um museu sem o percorrer «com olhos de ver». E, muito mais frequentemente do que pensamos, não sabemos ver. É preciso que alguém nos ensine a fazê-lo.
Numa obra hoje clássica (««saber ver»), o professor e crítico de arte Matteo Marangoni pergunta: «É portanto possível a educação do gosto? É possível ensinar a ver e a apreciar uma pintura, uma escultura ou uma obra de arquitectura? Geralmente, costuma desconfiar-se desta espécie de iniciativas e prefere-se, pelo contrário, crer que a obra de arte deve falar por si mesma; ou então, que só aquele que tiver aptidões naturais pode chegar a apreciar a arte. Então por que razão se lêem e comentam, em todas as escolas do mundo, os grandes escritores, sem que a ninguém tenha ocorrido excluir os alunos que não possuam capacidades literárias?»
Por sua vez, outro crítico de arte e escritor também italiano, Lionello Venturi, afirma que, para compreender a arte, à cultura artística deve juntar-se a sensibilidade individual. Uma e outra completam-se.
Vem toda esta já longa introdução a propósito de uma artista e da sua obra, Maria C. Ventura, que expôs recentemente um belíssimo conjunto de aguarelas na Casa do Concelho do Sabugal em Lisboa.
Maria da Conceição de Sousa Roque Ventura começou cedo a sua aprendizagem da pintura. A partir de 1985 estudou desenho com o Mestre Escultor Martins Correia e pintura com Madame Claudine Thireau. Tendo vivido em Itália até 1999, foi nas belas paisagens urbanas e rurais desse país que exercitou mais activamente a sua arte. Regressada a Portugal, fixou-se na região de Santarém, onde tem o seu ateliê.
Sendo amiga do Vice-Presidente da Direcção da Casa do Sabugal, Dr. Porfírio Ramos, foi por intermédio dele que tivemos oportunidade de ver um belíssimo conjunto de aguarelas sobre os monumentos e as paisagens da maior parte das freguesias do nosso concelho.
A técnica da aguarela, como sabemos, não é fácil e, por isso, são muito raros os pintores que se dedicaram a esta forma de pintura. Entre nós, dois dos maiores aguarelistas foram Alfredo Roque Gameiro e Alberto de Sousa, na primeira metade do século XX.
Aqueles que visitaram a exposição de Maria C. Ventura foram seguramente sensíveis à sua mestria técnica e à sua sensibilidade estética: na escolha dos temas, no rigor do traço, no naturalismo das paisagens e das cores. As fotografias que seleccionámos para ilustrar esta crónica não lhe fazem justiça. Bem melhor será visitar uma exposição de Maria C. Ventura, na Casa do Sabugal ou noutra casa qualquer.
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«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares
ad.tavares@netcabo.pt

One Response to Maria C. Ventura – uma pintora por terras do Sabugal

  1. Alberto Pachê diz:

    Um excelente texto que aborda uma questão central da forma de “ler” a obra de arte,que é ,também,em si mesma,uma questão filosófica entre a superficialidade do “olhar” e a profundidade do “ver”.O acto de “ver” em si mesmo,implica uma reflexão profunda e aturada,levantando questões e procurando as respostas mais correctas e adequadas.
    Gostei de saber que para além de Henri Matisse existem muitos outros que teorizam e reflectem acerca do belo.A estética ´e uma disciplina deslumbrante e por isso mesmo Hegel lhe dedicou vários e extensos volumes.
    Bem-haja,professor Adérito Tavares.

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