Pelas entranhas do Casteleiro

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CASTELEIRO :: :: – Tiago era um menino igual a tantos outros! Sobre o ombro pendia uma sacola magra de livros, mas cheia de aventuras para contar e de curiosidade para aprender. O corpo franzino contrastava com os oito anitos que já tinha. Apesar disso, as ruas e os terreiros onde costumava brincar eram calcorreados, diariamente, vezes sem conta.

Brinquedos de Outros Tempos - Joaquim Gouveia - Casteleiro - Capeia Arraiana

Carro de Bois – Brinquedos de outros tempos

Um dia o menino teve um sonho!
Sonhou que o seu papagaio feito de papel de jornal, oferta do Senhor Tó Pinto, cola de farinha e umas canas subtraídas ao molho que sua mãe guardara para estacar os feijoeiros voaria tão alto até conseguir ver a terra que lhe serviu de berço – o Casteleiro. Da Torre da Igreja, mensageira da «boa nova», portadora do relógio que juntamente com o sol marcavam a cadência do tempo desta gente laboriosa, iniciou aquela viagem mágica.
Passou pelo Reduto, onde jogou à cabra cega e às escondidas, escolhendo como esconderijo privilegiado uma «moreia» de lenha mesmo junto ao «açougue» do Ti Heitor. Paredes meias ficava a Casa do Povo, habitada pelo senhor Padre Zé Pires, a quem a garotada guardava o o respeito suficiente, não fosse ele encomendar não a alma, mas as orelhas à justiça lá de casa. Agora, já de arco feito de arame, retirado da asa do velho balde de zinco enferrujado, continuava a viagem que o levaria ao Terreiro da Fonte. Aí, muitos amigos ansiavam a sua chegada. Rapidamente se prepararam para ir até à «Garrida», pertença do senhor Manelzinho, onde os seus portais de acesso tinham ótimos montes de lenha, impeditivos do livre acesso de animais e pessoas, sendo arrastados, à socapa, até ao terreiro onde, depois de fazerem um enorme braseiro, iriam acalentar a braseira do Ti Luís Pinto ou do Ti Peranta, ambos mestres na arte de concertar ou fazer o calçado de pequenos e graúdos. Em troca recebiam uns magros tostões que, de imediato, eram trocados na loja do senhor Zé Mourinha, por uns deliciosos rebuçados, embrulhados em papel pardo, que ainda hoje guardo o sabor.
Ainda com a boca adocicada, o vento levava o «bando» até à Carreirinha, desta vez para tirar do sério o Ti Manel Fradinho. Aqui não resistiam em bater-lhe à porta e, já em fuga, deixavam para trás a lengalenga: “O Ti Manel Fradinho montou-se no burrinho/o burrinho era fraco/montou-se num macaco/o burrinho era forte/deu-lhe um pinote/o burrinho fugiu/p… que o …riu. E, com o peso dos anos a dificultar-lhe a marcha lá se arrastava, em vão, até à porta, na ânsia de fazer justiça.
A essa mesma hora, já o Tó Barbas alinhava o seu carro de bois, acabadinho de fazer a partir de um bocado de cortiça, extraída do velho sobreiro, sentinela centenária, na tapada do avô.
Mas não era apenas a cortiça que habilidosamente trabalhava; a partir de um bocado de amieiro, árvore abundante junto à ribeira, fazia «cangas» para «junguir» as vacas que haviam de puxar o carro, colheres de pau, piões e «pioscas».
Com o dia a terminar, e antes do toque das «Avé-Marias» impunha-se o regresso a casa!
Neste preciso instante Tiago acorda, interrompendo esta mágica viagem.
Já de olhos bem abertos deixa o forte desejo de um dia voltar a sonhar e continuar esta viagem que o ajuda a conhecer a sua terra de que tanto gosta.
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«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

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