Faleceu a Tia Madalena Jesus dos Santos

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Ao ler o título, muitos dirão que todos os dias morrem pessoas: familiares, amigos, conhecidos. Assim é, caros leitores, para morrer basta estar vivo.

Todos caminharam para o cemitério local

Todos caminharam para o cemitério local

Aconteceu numa das freguesias do concelho do Fundão. Ao entrar na Capela Funerária, um espaço com muita dignidade, vejo cerca de cinquenta pessoas, a maioria em pé em redor do féretro. Desperta em mim a atenção de um jovem (neto da defunta e estudante universitário) que dá início à recitação do terço. De seguida, chegam os funcionários da funerária, um deles faz a encomendação da alma. O celebrante eclesiástico não se desloca ao local, e o acompanhamento fúnebre segue para a Igreja Paroquial, ali a dois passos, onde vai celebrar-se a Eucaristia Exequial. Isto de «fazer funerais» também dá trabalho e é uma chatice.
No altar espera-nos um jovem sacerdote, acolitado por um colega idoso, antigo pároco. O Jovem Universitário dirige os cânticos litúrgicos adaptados ao momento e faz a primeira leitura. Muitas vezes a música religiosa liberta-nos.
O celebrante, em poucas palavras, salienta que todas as despedidas são dolorosas. A fé não é como um seguro que cobre todos os riscos. É necessário tê-la e praticá-la. O neto universitário – Mário Folgado de Oliveira e Silva -, antes de partir para o cemitério, lê uma significativa mensagem, que me apetece citar na íntegra, que todos devemos meditar, porque vale por mil sermões.
“O funeral é por excelência a hora de agradecer a Deus. Mais do que agradecer pelo que pudemos dar, é o momento primordial e verdadeiro para agradecer tudo aquilo que recebemos. A família com os amigos e conterrâneos em oração, querem agradecer a Deus os momentos, os exemplos, a dedicação e a vida de Madalena de Jesus dos Santos.
Na verdade, ela nunca precisou de saber ler um livro para ser sábia, ela nunca precisou de saber contar para saber o que faltava a cada um para ser feliz, ela nunca escreveu, mas ensinou-nos a todos a aprender, ela nunca soube filosofia, mas nunca perguntou o porquê das coisas, apenas fez a paz e o amor e viu que isso era bom.
Oitenta e seis anos de vida não se podem resumir na palavra gratidão, seria pouco o alcance desta palavra. para quem sempre lutou para viver e para fazer os outros viver. Muitas filhas, muitos netos e bisnetos, muita família que ela nunca esqueceu, na sua pobreza sempre os reconheceu, e no seu amor sempre os receberam.
Ser avó é ser mãe duas vezes, ser avó é ser mãe dócil, dócil porque foi mãe sem dores de parto, avó dedicada, mãe que socorria todos os que tinham fome, ensinando que mais valia passar fome que passar a vida no egoísmo e não saber partilhar o pouco que se tem. Ela nunca teve muito, o pouco que tinha, sempre foi a mesa posta, o presente do Natal, a mão de ajuda.
Foi Senhora das Dores, trinta anos de viuvez, seis filhas e tantos netos e bisnetos para criar, foi deixando para ela própria o sofrer. Quanto mais sofria, mais queria viver, quanto menos tinha, mais estendia as mãos para ajudar. «Lembra-te ó Pai como era frágil o barro com que me fizeste», e ó Pai, o barro que tu nos deste, desfez-se. Daqui a cem anos poucos se lembraram desta mulher, mas seguramente daqui a cem anos todos serão um bocadinho dela. Hoje, fazem sentido as palavras do poeta Arnaldo Santos, quando dizia «hoje sei que as sereias do lago / Te uniam ao luto enorme que choravam / de um povo inteiro sepultado», na verdade esta família é esse Povo que em luto deixa sepultar parte de si, os seios que nos amamentaram, as mãos que nos ajudaram, o sorriso que nos fez felizes.
Este Povo reclama-te a saudade, ao olharmos para ti vemos um corpo vazio, desprendido da vida, que à semelhança do sepulcro vazio de Jesus espera a Ressurreição.
Neste momento, cabe-nos agradecer a Deus pelo que recebemos de ti, contigo aprendemos tudo para que lutando na vida aprendamos a ser felizes. Aquilo que eras é a chama que vive em nós, neste último encontro só uma certeza nos guia, sobre a terra que te há-de cobrir, sobre a lápide sobre ti desce, dois anjos eternamente de joelhos continuar-te-ão a adorar, um desses anjos, chama-se Saudade, o outro chama-se Bem-Haja!
Mais palavra para quê? Num silêncio religioso todos caminham para o cemitério local, respeitando a dor dos familiares. Paz à sua alma.
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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