Adelaide Cabete – Médica, Republicana e Sufragista

Por Terras de D. Dinis - Maria Máxima Vaz - © Capeia Arraiana

Pela modéstia do seu nascimento nada fazia prever que Adelaide Cabete viesse a ser uma das médicas mais notáveis do princípio do século passado. Grande como profissional, grande como cidadã. A República teve nela uma das maiores defensoras dos ideais de progresso e justiça social. Empenhou-se seriamente na saúde pública e na cultura popular. Podemos afirmar, sem exagero, que não houve injustiça a que fosse indiferente, nem causa justa que não a encontrasse pronta para a acção.

Adelaide Cabete - Maria Máxima Vaz - Odivelas - Capeia Arraiana

Instituto Feminino de Educação e Trabalho em Odivelas

Adelaide de Jesus Damas Brasão Cabete nasceu em Elvas a 25 de Janeiro de 1867. Oriunda de uma família modesta de trabalhadores rurais, cedo conheceu o trabalho a que se dedicava a sua mãe – a indústria caseira da secagem de ameixas, bem como os trabalhos domésticos e alguns agrícolas, tradicionalmente executados pelas mulheres.
Com 18 anos de idade casou com Manuel Ramos Fernandes Cabete, sargento do exército.
A jovem Adelaide era analfabeta e foi o seu marido que a incentivou a instruir-se.
Iniciou a escolaridade com 20 anos e em 1889 fez exame de instrução primária, perto de completar 23 anos. Em 1894, com 27 anos, terminou o curso dos liceus com distinção e logo no ano seguinte realizou os exames para entrar na Escola Politécnica.
Em 1896 ingressou na Escola Médico-Cirúrgica e em 1900, com 33 anos de idade, terminou a licenciatura em Medicina, com a apresentação da tese «A protecção às mulheres grávidas como meio de promover o desenvolvimento físico das novas gerações».
A sua actuação como médica, nunca abandonou este campo, quer na divulgação dos cuidados materno-infantis e no esforço para melhorar as condições de vida das mulheres e das crianças, quer na defesa de um plano de cuidados básicos de saúde e na forte e persistente luta contra o alcoolismo.
Publicou obras sobre puericultura e higiene feminina e cuidados a ter e normas a observar na higiene doméstica. Defendeu e praticou a protecção à mulher pobre, sem marginalizar as prostitutas a cujos problemas foi sempre sensível e mereceu-lhe sempre grandes cuidados a educação das crianças; combateu incansavelmente a propagação das doenças infecto-contagiosas.
Foi, durante 17 anos, professora de Higiene e Puericultura no Instituto Feminino de Odivelas, que tinha o nome «Instituto F. Educação e Trabalho», adoptado durante a Primeira República, sendo director o Tenente-coronel Frederico Ferreira Simas, republicano de grande prestígio, notável pedagogo, fundador da Associação das Antigas Alunas, a mais antiga associação feminina existente em Portugal.
Na Universidade Popular Portuguesa, instituição criada na Primeira República, Adelaide Cabete dirigiu um curso sobre higiene e puericultura, destinado às mães, tendo em vista dotá-las de conhecimentos para um saudável desenvolvimento das crianças.
Reclamou sempre o ensino da puericultura e da higiene nas escolas e reivindicou insistentemente a construção de uma maternidade, vindo a construir-se, em resultado dessa sua acção, a Maternidade Alfredo da Costa.
Foi presidente e principal organizadora do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e o trabalho aí desenvolvido tinha como objectivos melhorar a situação legal da mulher na sociedade e na família, a erradicação da prostituição, a melhoria da saúde pública, a criação de gabinetes de consulta para profissões, educação e protecção a emigrantes, sobretudo mulheres e crianças, protecção das crianças contra os maus tratos, trabalhos pesados e abusos sexuais, o tratamento da saúde da mulher e da jovem grávida.
No campo político foi grande activista da causa republicana e defensora dos direitos das mulheres. Esteve presente, em representação das mulheres portuguesas em vários congressos internacionais – em Maio de 1913, no Congresso de Gant, em Maio de 1923 no Congresso Feminista de Roma, em 1925 no Congresso de Washington.
Em 1924 foi a responsável pela organização de um congresso no nosso país, cargo que desempenhou com grande competência, eficácia e sentido prático.
No plano social interessou-se ainda e lutou pelo abolicionismo, pelos presos, deportados e emigrados políticos.
Em 1929, desgostosa com o caminho que Portugal seguia, partiu para Angola, onde retomou o trabalho realizado até ali, sempre em prol dos que mais precisavam dos seus serviços e onde se empenhou na defesa dos direitos dos indígenas e de outras causas justas, sem esquecer a criação de maternidades e de instituições para crianças.
Adelaide Cabete merece todo o nosso reconhecimento e aqui deixo o meu testemunho sobre uma MULHER que muito honrou e dignificou a mulher, que muito deu aos seus concidadãos, que tudo o que teve foi conquistado pelo seu esforço, porque nada lhe foi dado.
Na verdade, a natureza foi generosa com ela – dotou-a de uma enorme inteligência e de um grande coração.
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«Por Terras de D. Dinis», crónica de Maria Máxima Vaz

2 Responses to Adelaide Cabete – Médica, Republicana e Sufragista

  1. António Emídio diz:

    Minha Senhora :

    Presumo que Adelaide Cabete tenha também sido das primeiras mulheres portuguesas a pertencer à Maçonaria. Foi Obreira da Loja Humanidades, e teve papel relevante quando as mulheres foram afastadas do Grande Oriente Lusitano Unido, lutou para a sua reintegração.

    António Emídio

  2. Maria Máxima Vaz diz:

    António Emídio :

    Sim, Adelaide Cabete, como quase todas as mulheres que apoiaram os republicanos, pertenciam à Maçonaria.

    Hoje a Maçonaria tem má fama, mas os princípios eram louváveis e naquele tempo cumpriam-se.
    Adelaide Cabete lutou sempre pelo que achava justo, como fez no caso que refere, da reintegração no GOL.

    Maria Máxima

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