Brinquedos e brincadeiras de antigamente (5)

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CASTELEIRO – CARRO DE BOIS :: :: – As alfaias agrícolas como o carro de bois, a charrua, o arado, a grade, imitavam objetos ligados ao quotidiano rural do Casteleiro. Através delas, as crianças, nomeadamente os rapazes aprendiam as funções e funcionamento de cada instrumento.

Carro de Bois - Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana

Carro de bois – memória de um tempo passado faz delícia nos dias de hoje

A memória até aos nossos dias chega através do trabalho, de muito trabalho, quando se fala do carro de bois. Desde muito cedo os rapazes começavam a acompanhar os pais nas lides da terra, único meio de subsistência, a quem retiravam o máximo durante os 365 dias do ano.
Ainda de tenra idade ajudavam os pais muito para além das suas forças; as brincadeiras surgiam através da recriação de cenas ligadas ao trabalho agrícola.
As crianças, ao brincarem com os carrinhos de bois, não faziam mais que imitar os seus pais quando transportavam as espigas dos cereais, as batatas, o estrume para fortalecer a terra, ou mesmo a lenha que havia de aquecer a casa de cada um de nós… E assim se entretinham as crianças de então.
E como a necessidade aguçava o engenho: das cascas de abóbora, ou com um bocado de cortiça faziam carros de bois, os próprios bois, a grade, as colmeias para as abelhas; das canas cortadas no ribeiro faziam os arados e, a rua também de terra, onde as crianças brincavam transformava-se em «campo arável», onde as hortas «faz de conta» se multiplicavam; das cascas dos eucaliptos que no final do Verão largavam o tronco mãe, escolhiam-se as mais direitas, cortavam-se duas do mesmo tamanho, fazia-se um buraco no meio e, era um instante enquanto se construía uma caravela ou moinho de vento.
É pela ligação ao passado e ao meio local que a criança reforça a consciência de uma identidade que nos diferencia e distingue num mundo cada vez mais uniformizado, como espelham os brinquedos industrializados.
Mergulhar neste mundo dos brinquedos tradicionais é aprender, é conhecer melhor a história do nosso povo, para quem o respeito pela terra, pela natureza faz parte do quotidiano de quem a habita.

«O meu pai tinha alguma habilidade para fazer certos brinquedos… Recordo-me de ele ter feito, com uma madeira muito rudimentar, um moinho. A água que corria na caleira da rega era tirada por uma nora, em que o animal, o burro ou a vaca, faziam a tiragem da água. E eu, muito pequenino, recordo-me de passar horas a ver aquele moinhosinho a funcionar, com a força da água na caleira, que depois ia para regar as batatas, os feijões e o milho.»
(Informante: Custódio)
:: ::
«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

2 Responses to Brinquedos e brincadeiras de antigamente (5)

  1. JFernandes diz:

    Caro JLGouveia:
    Quando hoje vejo as nossas crianças cheias de brinquedos que alguém produziu e os pais compraram para elas brincarem naturalmente que me vem à memória o contraste entre estas crianças e as crianças que foram os autores destes textos.
    Outros tempos, outros brinquedos, outras crianças.
    Parabéns pela série e, dentro dela, por este texto.
    Jfernandes

    • Joaquim Luís Gouveia diz:

      Caro JFernandes

      Obrigado pelo interesse para com este tema, dos brinquedos e brincadeiras.

      A uma velocidade galopante, que nem sempre conseguimos acompanhar, esta viagem pelo mundo dos brinquedos permite-nos olhar para um passado, repleto das nossas vivências, e viver os dias de hoje, na presença das crianças em contexto de brincadeiras.
      Sem dúvida que o avanço tecnológico a que assistimos, também no nosso país, trouxe alterações de paradigmas e de interesses. O jogo eletrónio assumiu o centro dos interesses das crianças de hoje. A quantidade e diversidade de brinquedos (às vezes em demasia) que cada criança tem, contrasta radicalmente com as de outros tempos.

      Uma coisa é certa, ontem como hoje, o brinquedo assumiu sempre não só um papel recreativo e de lazer, mas, sobretudo, um forte contributo para o desenvolvimento global da criança.

      Ontem como hoje, os brinquedos e as brincadeiras povoaram o imaginário das crianças, ao ponto de, e a partir deles, as crianças recrearem cenas e cenários, atores e atrizes de espaços imaginários.

      É esta MAGIA do brinquedo que é urgente preservar.

      Abraço.

      JLGouveia

Deixar uma resposta