Pelourinhos em Terras de Riba Côa (29)

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

:: :: ESCALHÃO :: :: – A existência de Pelourinhos nem sempre foi consequência da existência de Municípios. Muitos existiram sem que os seus pelourinhos chegassem até nós. Isso verifica-se principalmente em locais grandemente fustigados por batalhas e invasões militares. Escalhão foi um desses Municípios. Aqui não há pelourinho.

Igreja matriz de Escalhão

Igreja matriz de Escalhão

Escalhão é uma freguesia do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo que confina com o rio Agueda, o qual é, por sua vez, e durante largos quilómetros entre a foz do Rio Tourões e o Rio Douro onde desagua, a fronteira entre Portugal e Espanha. Este rio, Águeda, nasce em Portugal, na serra da Malcata muito perto da nascente do Côa. Enquanto que o Côa circula a partir daí pelo Sabugal e Almeida, Figueira e Vila Nova de Foz Côa o Águeda corre primeiro para nascente, circulando depois por terras espanholas, até que, já depois de Cidade Rodrigo, flecte para poente e passa a ser a fronteira. Escalhão possui uma igreja matriz que acima se reproduz a qual foi construída sobre os restos de uma fortaleza medieval e onde aconteceu uma refrega com espanha durante a guerra da restauração. Por isso também se lhe chama Igreja-Fortaleza. A sua imponência coloca o observador na dúvida se está defronte de uma igreja ou de uma fortaleza.
A igreja foi classificada como imóvel de Interesse Público através do decreto-Lei nº. 95/78 de 12 de Setembro (aqui).
Situada na margem esquerda do Rio Águeda é um local que terá sido povoado desde tempos imemoriais, havendo vários vestígios arqueológicos que atestam isso mesmo.
Em 1310 D. Dinis mandou construir um castelo nesta freguesia que se encontra em ruínas. Em Barca de Alva, que é uma anexa de Escalhão, também existiu uma fortaleza que ao longo do tempo desempenhou um papel de relevo.
Durante a guerra da Restauração, Escalhão foi uma das povoações que teve um papel importante no travar da invasão espanhola por parte do Duque de Alba. Foi aliás na sequência dessa resistência em 1642, que D. João IV lhe atribui o título de honra a 29 de Fevereiro de 1648. E, em 1650 a eleva à categoria de vila e cria o concelho.
O concelho de Escalhão tinha como território o que actualmente pertence à freguesia com o mesmo nome e que abaixo se representa dentro do território de Figueira de Castelo Rodrigo. Em 1836 o concelho de Escalhão foi extinto e integrado em Figueira de Castelo Rodrigo onde ainda se mantém.

Escalhão no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo

Escalhão no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo

O brasão de Escalhão contém dois elementos relativos à característica bélica associada à povoação – 2 Alabardas . Contém igualmente um terceiro elemento relativo à produção de azeite que é um dos principais produtos agrícolas desta região.
O brasão é encimado por quatro torres prateadas característica dos Municípios.
Os símbolos heráldicos foram publicados na III série do Diário da República de 5 de Novembro de 1994.

Brasão de Escalhão

Brasão de Escalhão

Sobre a Ribeira de Aguiar encontra-se uma ponte que permite fazer a travessia entre as margens. Esta Ponte teve origem romana. Foi reconstruída e melhorada no século XIV e beneficiada no século 20 quando lhe foi introduzida a guarda que foi trabalhada no mesmo material da ponte. Possui dois arcos e apenas um corta-mar. O pavimento é lageado com peças de granito polido com o uso e com o tempo. Na lateral da ponte ainda existem ruínas daquilo que foi um antigo moinho, na imagem à direita.
Esta Ponte, constituía uma importante passagem para trás-os-Montes e permitia a passagem dos peregrinos que rumavam a Santiago de Compostela.
Esta Ponte é um Monumento Nacional tendo essa classificação sido atribuída pelo Decreto nº. 8228 de 1922 publicado na I Série de 4 de Julho de 1922 ,e a sua descrição consta (aqui).

Ponte Romana sobre a Ribeira de Aguiar

Ponte Romana sobre a Ribeira de Aguiar

Em 2013, na sequência da reforma administrativa que ocorreu, a freguesia de Escalhão manteve o seu território e continua a existir como freguesia (aqui).
Nesta zona, em que tantas batalhas foram travadas e cujo desfecho foi decisivo para a consolidação do território nacional, as terras e as gentes só podem ter algo de especial, algo que apenas se consegue ver e sentir quando estivermos de frente para essa gente. São naturalmente menos do que eram há umas dezenas de anos mas a sua génese, vontade e determinação são os mesmos.
Visitar esta zona em Novembro, é ver como o resultado do trabalho anual se acaba por reflectir na produção de azeite e uns meses depois, as amendoeiras em flor completam o quadro que qualquer um gostaria de facultar aos seus olhos. Vamos até lá e não privemos por mais tempo a nossa vista de paisagens que apenas aqui pode ter.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

jfernandes1952@gmail.com

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