A História por medida

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

De vez em quando, a nossa história é surpreendida por atitudes truncantes de episódios que este ou aquele acham que devem ser eliminados. Há pessoas que se acham no direito de dizer para o futuro o que merece ser história ou não. Querem pelos vistos uma história feita à sua medida.

Fazer uma historia à medida, mesmo que seja preciso truncar a que existe.

Fazer uma historia à medida, mesmo que seja preciso truncar a que existe.

Há coisas que me tiram do sério como costuma dizer-se. E tiram-me do sério com uma intensidade tanto maior quanto maior é a questão envolvida.
Nos últimos dias, houve pelo menos duas situações, na minha opinião caricatas, que envolveram diferentes actores mas cujo resumo conduzia ao mesmo fim. Negação ou esquecimento de episódios da nossa história.
Um deles foi protagonizado por um vereador da Câmara Municipal de Lisboa, José de Sá Fernandes, que, com o argumento de que a manutenção do jardim da praça do império era cara, estaria a envidar esforços no sentido de eliminar desse jardim aquilo que faz encarecer a manutenção: Os brasões das diferentes províncias ultramarinas. Estes já não faria sentido existirem naquela praça pois há muito que portugal deixou de ter as províncias que eles representam. A situação, para além de ridícula, parece-me ofensiva para a generalidade dos portugueses.
Para quem não sabe, os brasões que se encontram no jardim em frente ao Mosteiro dos Jerónimos e representam os distritos e também as antigas províncias ultramarinas que hoje são países independentes, foram concebidos usando plantas e flores naturais.

São estes os brasões

São estes os brasões

Ora, parece que a Câmara de Lisboa através daquele senhor está em vias de mandar eliminar estes brasões por, segundo dizem, estarem ultrapassados e por outro lado por ser cara a sua manutenção.
A situação é demasiado bizarra para ser verdade. Mas é mesmo. Este senhor entende que estes brasões estão ultrapassados pois hoje Portugal já não tem um império e por isso, não tem que ter a referencia às províncias que o compunham.
De repente, veio-me à ideia, a propósito de outros textos que tenho produzido a propósito dos pelourinhos na região de Ribacôa, que em tempos idos, houve outros “Sá Fernandes”, que destruíram vários deles o que conduziu a que, hoje, não sabemos sequer como eram.
Qualquer dia, se por acaso este senhor alguma vez viesse a ser Ministro da Educação, não me admirava nada que mandasse arrancar dos livros as páginas que se referem às antigas províncias ultramarinas.
É curioso que este senhor que agora tão preocupado está em poupar na manutenção do jardim, foi o mesmo que provocou o embargo das obras do túnel do marquês no tempo de Santana Lopes e que conduziu a que a Câmara de Lisboa tivesse de pagar de indemnização ao empreiteiro provavelmente importâncias que dariam para manter o tal jardim durante décadas.
É que, fruto da sua intervenção, a única coisa que se conseguiu não foi alterar a obra, foi pará-la. E, durante o tempo em que esteve parada o empreiteiro teve legitimamente de ser indemnizado.

Exposição de bustos dos ex-Presidentes da República

Exposição de bustos dos ex-Presidentes da República

A outra situação é ainda mais caricata e prende-se com uma exposição de bustos dos ex-presidentes da república no parlamento. Aqui, alguém entendia que a exposição não devia incluir os bustos dos Presidentes da República do Estado Novo pois era uma forma de branquear o próprio Estado Novo.
Mas a situação aqui é de tal modo grave que quem assim entende são alguns dos deputados que elegemos para o parlamento. Mas que raio se passa com esta gente? Será que estão todos loucos? Ou serei eu que estou? Mais uma vez, alguém entende que a nossa história só é feita de coisas boas ou que na sua opinião são boas para serem história. As menos boas, nem se deve falar delas.
Mas que raio, Foi para isto que elegemos os nossos deputados? Ou será que a sua mente ficou de repente retorcida ou laminada de forma a que apenas veem aquilo que querem ver. Mais e entendem que os restantes cidadãos só podem ver aquilo que eles acham que deve ser visto.
Estes Senhores que assim entendem estão a fazer exactamente aquilo que os senhores do Estado Novo fizeram e que eles, eu e tantos como eu, tanto condenámos. Sejamos coerentes. Não contribuamos para truncar a história
A nossa história é feita de tudo o que de bom e mau aconteceu ao longo do tempo. História feita à medida é tudo menos HISTÓRIA.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

jfernandes1952@gmail.com

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