Brinquedos e brincadeiras de antigamente (4)

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CASTELEIRO – JOGO DO PIÃO :: :: – Noutros tempos, andar com um pião e uma baraça no bolso ou na sacola da escola era praticamente obrigatório. Alguns eram comprados mas, a maior parte, eram feitos manualmente, mesmo que não bailassem muito bem. Cada um fazia gala de exibir a sua própria criação.

Jogo do Pião - Jogo de Rapazes .- Joaquim Gouveia - Casteleiro - Capeia Arraiana

Jogo do Pião – Jogo de Rapazes

Na sua tenra idade de sete anos António, de sacola às costas, dirigia-se diariamente à escola, local onde hoje funciona o Posto Médico do Casteleiro. Ficava no Largo de São Francisco, mesmo junto à estrada nacional. Tão pequeno era António que achava aquele largo uma imensidão, que lhe gastava as pernas de tantas correrias!
À hora do recreio (sem horário pré definido, dependendo sempre da vontade do senhor professor) o largo da escola era, como certamente muitos se lembrarão, inundado de piões… e muitas outras brincadeiras de rapazes, sim porque a escola das raparigas (escola nova) fora construída mesmo no início do povoado, como que piscando o olho à Serra da Estrela.
Aqueles momentos fugazes eram mágicos… faziam mil e uma coisas! Com aquele pião sempre bem guardado no bolso, fazia habilidades sem fim. Era um desafio permanente: ficar a ver aquele que melhor bailava, que rodopiava mais tempo no chão, que saltava para a palma da mão e… por ali ficava… até perder as suas forças e… parar.
Já em situação de jogo, o objetivo era fazer bailar o pião, por mais tempo, num certo local ou de uma certa maneira, variando consoante a imaginação dos parceiros. Uma variante muito utilizada era a «roda bota fora». Sem saber ainda muito bem o que era, António rapidamente faz um círculo (uma roda) naquele chão térreo, que era dele, para aí lançar o pião que teria de bailar e conseguir sair de lá, antes de parar.
Exímio na arte de lançar o pião, também Zezito não perdia oportunidade de demonstrar os seus dotes e muito treino. Todos os colegas gostavam de o ver lançar o pião mas poucos se arriscavam a ser parceiros de jogo.
Para aqueles que não conseguiam que o seu pião saísse da «roda» eram, de imediato, castigados ao ponto de deixarem o seu pião, no interior do círculo.
De pontaria certeira e acutilante, Zezito lançava o seu pião de bico bem afiado acertando, quase sempre cheio, no pião do adversário que ali cumprira castigo, deixando-o danificado ou mesmo destruído.
Para que tal não acontecesse, o pai do António, com a habilidade que o caracterizava, fez-lhe uma «piôsca» (pião, mais pequeno, feito manualmente) de modo a poupar-lhe o pião a estas penalizações do jogo.
Graças ao pai do António, guardador de uma sabedoria construída a partir dos ensinamentos da vida, foi possível revisitar o espaço, recriar o jogo e verter para esta crónica estes momentos hilariantes.

«Fiz muitos piões, no meu tempo de escola; com uma navalha e um bocado de oliveira lá fazia eu um bonito pião. Depois, enrolava-o na mão com uma baraça de sisal ou de algodão feita por mim e, com um pouco de habilidade, lá jogava eu o pião para a roda marcada no chão térreo do Largo do Terreiro da Fonte no Casteleiro.»
(Informante: José Martins)

Nota
Pião de ronca – Era um pião de grande porte, feito a partir de um tronco de madeira dando-lhe, na parte superior, a forma de cabeça e a parte inferior, em forma de gargalo de garrafa que, por sua vez, era metido no orifício de uma outra peça de madeira (chave do pião de ronca). Depois, com auxílio de uma baraça grande e forte, fazia-se girar a dita «cabeça» sobre o orifício de modo a saltar para a estrada (local onde habitualmente se jogava) onde permanecia a girar, produzindo um som (zunido), daí o nome – pião de ronca.
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«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

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