Brasão, Selo e bandeira (3)

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

:: :: CERDEIRA :: :: – Como se disse nos textos anteriores, a generalidade das autarquias possui os seus símbolos heráldicos. Esses símbolos, para cada povoação são uma espécie de denominador comum a toda a comunidade. Vamos ver que comunidade é esta que se sente representada neste símbolo.

Brasão da Cerdeira

Brasão da Cerdeira

A Cerdeira é uma freguesia do concelho do Sabugal, tendo os respectivos símbolos heráldicos sido aprovados pelos competentes órgãos da autarquia e publicado o seu registo no diário da República, III série, nº. 165 de 19 de Julho de 2000. Os símbolos heráldicos são formados pelo brasão, selo e bandeira sendo certo que o brasão é a base de qualquer dos outros.
A descrição dos símbolos heráldicos da Cerdeira foi feita assim:
Escudo de ouro, três cachos de cerejas de vermelho, com os pés de verde, alinhados em roquete; em campanha, ponte de três arcos de negro, lavrada do campo, firmada nos flancos e movente de um pé ondado de duas tiras ondadas de azul e prata. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco, com a legenda a negro: «CERDEIRA – SABUGAL».
O brasão da Cerdeira contém essencialmente 3 elementos importantes: As cerejas, que terão dado o nome à povoação; Um rio, o Noémi cujo leito era confinante com a povoação da Cerdeira a nascente desta; E uma ponte que atravessando o rio ligava as suas margens e permitia a circulação de pessoas e bens entre ambos os lados do rio.
Quando em 1882 se inaugurou a linha da Beira Alta entre a Guarda e Vilar Formoso e se previu que na Cerdeira fosse localizada uma estação a aldeia começou a crescer precisamente para a zona da estação. E cresceu de tal modo que passados alguns anos essa zona já tinha uma dimensão quase igual à da outra margem. A ponte passou então a fazer a ligação entre o Povo e a Estação. Foi assim que passaram a ser conhecidas as duas partes da aldeia.

Estação ferroviária da Cerdeira

Estação ferroviária da Cerdeira

A Cerdeira é uma freguesia limitada por dois rios e atravessada por um terceiro. Na verdade, o limite norte do seu território é a Ribeira das Cabras; o seu limite Sul é o Rio Côa, na Ponte de Sequeiros (lado nascente) e, para além de tudo isto é atravessada a meio pelo Rio Noémi e Linha da Beira Alta. Uma terra com estas características hidrográficas e ferroviárias só poderia vir a ser Grande.
Ao contrário de outras freguesias, no caso da Cerdeira, o pároco de 1758 não respondeu de forma organizada às perguntas que lhe foram feitas na sequência do Terramoto de 1755. Produziu a sua resposta na forma de prosa, sem se preocupar com a sistematização das perguntas. Assim muito pouca informação podemos obter a partir desse texto. Sabemos, por exemplo que a Capela da Senhora do Monte já existia e que era local de grandes procissões. Sabemos que a capela de Santo Amaro também já existia. Sabemos também que a estação não existia pois a linha da Beira Alta só apareceu naquele local mais de um século depois. O Pároco nada diz quanto ao Noemi e o rio já lá estava. Veja-se a resposta do pároco (aqui). Será que foi propositada a resposta? Sonegar informação poderia inserir-se no contexto que se vivia na altura em que as relações igreja/Estado não primavam pela cordialidade (Foi o Marquês de Pombal que extingui a Companhia de Jesus [Jesuítas]).
Mas, no final do século XIX antes portanto de 1900, é-nos revelado o que se passava na Cerdeira e nas restantes freguesias do Sabugal. Isso foi-nos revelado por Joaquim Manuel Correia, um estudioso destas coisas, através da Monografia do concelho do Sabugal. Este autor, naquela época, percorreu as aldeias e por isso o que escreveu foi o que viu. Do que disse relativamente à Cerdeira destacamos:
Já existia a ponte sobre o Noémi que ligava o povo ao bairro Novo que se desenvolvia e prosperava junto da Estação da linha férrea da Beira Alta e avançava ao longo da estrada que dali se dirige para a sede do concelho.

Ponte sobre o rio Noémi

Ponte sobre o rio Noémi

A Cerdeira fica na margem esquerda do Noémi, ou melhor, direi eu, que estou no século XXI, em ambas as margens.
A Cerdeira era a freguesia mais desenvolvida do concelho do Sabugal.
As principais produções são centeio, batata e castanha.
A estação da Cerdeira era naquela altura o principal local donde se podiam enviar os bens produzidos para os locais de consumo.
Para uma análise mais pormenorizada pode ser consultado o texto integral (aqui).
Mais tarde, agora em 1942, e por isso em plena 2ª. Guerra Mundial, foi publicado o anuário comercial onde se fazia uma resenha dos principais agentes económicos e Civis da Cerdeira. Por aqui se verifica que esta aldeia era na verdade muito desenvolvida naquela época quando comparada com as restantes. Já nessa altura possuía, registo civil, 3 agências bancárias, juiz de paz, etc. veja (aqui).
Como a generalidade das aldeias do concelho do Sabugal também a Cerdeira, a sua anexa Redondinha e bem assim a Senhora do Monte foram objecto da inspiração poética de Manuel Leal Freire, poeta da Bismula, que lhes dedicou estes sonetos (aqui, aqui e aqui).
Hoje, em 2014, a Cerdeira, como grande parte das aldeias perdeu grande parte da população e, naturalmente por isso, deixou de ser o centro económico da zona. Aliás, agora é difícil perceber onde na zona é o centro económico. Apesar disso, a estação de comboio continua a existir, o Colégio da Cerdeira, continua a funcionar apesar de o número de alunos ser cada vez menor. Por outro lado, na Cerdeira desenvolveu-se uma actividade relacionada com a produção e tratamento de caracóis que tem vindo a crescer e a expandir-se: é o Caracol Real. Este tem vindo a fazer jus ao ditado popular: Devagar se vai longe.
A Cerdeira em 2014 continua a ser uma freguesia cujo território se localiza em grande parte entre os concelhos de Almeida e da Guarda.

Cerdeira no Município do Sabugal

Cerdeira no Município do Sabugal

Uma coisa me incomoda, mais na Cerdeira do que em qualquer outra aldeia, até mais do que na minha freguesia, a Parada: Porquê Parada do Côa ou mesmo Cerdeira do Côa? É que esta é atravessada pelo Rio Noémi.
A única explicação plausível que encontrei para esta situação tem a ver com a grande visibilidade que o Rio Côa teve desde os tempos medievais e ainda tem, ao contrário do Noémi que sendo um afluente daquele foi durante muitos anos um ilustre desconhecido.
Aliás, o Noémi é um Rio que apenas adquiriu visibilidade depois da construção da linha ferroviária da Beira Alta inaugurada em 3 de Agosto de 1882 a qual se desloca nas margens daquele rio entre a Guarda e Vilar Formoso. O vale deste Rio foi objecto de um texto publicado neste órgão regional (aqui).
Ou pior, o Noémi adquiriu visibilidade pelas piores razões nos últimos anos ao serem denunciadas as situações de agressão que contra ele tem estado a ser cometidas poluindo as suas águas (aqui).
Como aconteceu com a generalidade das aldeias da Beira Interior, a Cerdeira teve a sua população no máximo em 1950. A partir daí foi sempre a decrescer.
Hoje, a generalidade das aldeias, e a Cerdeira não é excepção, possui equipamentos de natureza social, essencialmente destinados a apoiar os resistentes residentes que, à medida que os anos passam e de acordo com a lei natural da vida vão ocupando esses equipamentos e numa fase posterior os talhões dos cemitérios que cada vez mais vão ficando ocupados e acabam por reproduzir o mapeamento das antigas povoações.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

jfernandes1952@gmail.com

4 Responses to Brasão, Selo e bandeira (3)

  1. António Alves Fernandes diz:

    Gostei do texto. Porém, colocar no símbolo heráldico da Freguesia da Cerdeira do Coa, cerejas, não me parece correto. Conheço muito bem a Cerdeira do Côa, e nunca tive conhecimento que era importante pelas cerejas, que nunca as vi ali, mas sim pela importante Estacão de Caminho de Ferro, de importância fundamental para uma parte das povoações arraianas, o Dispensário, o Colégio das Servas de Jesus, a Senhora do Monte, o comércio, etc. .Agora,cerejas, nunca…

  2. Ana Pires diz:

    António Alves Fernandes, na quinta (um local onde vivia uma grande família há uns escassas décadas, havia imensa cerejeiras e na aldeia, em muitos quintais (falo do da minhas família e de pelos menos meia dúzia de vizinhos) também havia e há cerejeiras…
    Quanto ao (Cerdeira) do Côa, José Fernandes, partindo dos seixinhos brancos ( na aldeia toda agente conhece) vai-se a pé até ao Côa num instante. Será por isso?

  3. JFernandes diz:

    Boa noite.
    Obrigado a ambos pelo interesse que o texto vou mereceu. Há na verdade algumas cerejeiras na cerdeira assim como nas redondezas, Parada, Miuzela, etc. Quanto ao “do Côa” provavelmente será por isso, mas mesmo antes disso, passámos pelo Noémi.
    JFernandes

    • Teresa Faria T..Cirne de Castro diz:

      Gostei imenso de saber da existência de um manuscrito depositado na Torre do Tombo sobre as paróquias/freguesias do concelho.
      Tenho muita pena que “Manoel Francisco Damazo, Vigario Parochial Igreja de Nossa Senhora da Vezitaçam”, tivesse limitado a “terra” (Cerdeira) a ”prossiçoins”, “Capellas” e “romarias” a “ermidas” sem “altares”, “santos” e “naves”, como resposta às (45?) perguntas feitas em 1758 no “inquérito censório a todo o reino assinado pelo Marquês de Pombal após o terramoto de 1755”.
      As dúvidas sobre tantas facetas da história da minha aldeia, mantêm-se (e nas “Memórias” de Joaquim Manuel Correa, também – descortinei-o quando resolvi escolher o tema “Combóios” para um dos meus primeiros postes); o que não aconteceria se o dito Vigário tivese sido menos insuficiente…
      Porém, refere-se a “huma Caza muito suntuoza, toda de pedra lavrada, e tem hum muito grave frontespicio e tres arcos” que não sei localizar…
      Vou deixar aqui expressa uma palavra de reconhecimento ao “Poetando” de Manuel Leal Freire, uma vez que foi na leitura do seu blogue que o encontrei.
      Até uma próxima oportunidade

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