Casteleiro – Brinquedos e brincadeiras de antigamente (3)

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

«Não era preciso muito para a brincadeira acontecer, desde que a imaginação não faltasse… porque a natureza oferecia o que tinha: terra, água, lama, frutos, ramos e… espaço.»

Brincava às mães e às filhas - Joaquim Gouveia - Casteleiro - Capeia Arraiana

«Brincava às mães e às filhas…»

Joaquina era uma menina igual a tantas outras. Desde muito cedo aprendeu quantas escadas tinha o balcão de sua casa. Todos os domingos e antes que o sino tocasse a primeira de três, anunciando a missa dominical, Joaquina não tinha sossego enquanto o granito que pisava não estivesse bem roçado.
Os seus oito anitos eram demasiado tenros para o esforço que lhe era exigido. A mãe, cansada e doente, mal tinha tempo e forças para cuidar de dois franzinos rapazes, que um dia mais tarde haveriam de frequentar a escola. Bem, quanto à Joaquina, o que era necessário mesmo, era aprender as lides da casa: ajudar a amassar e cozer o pão, cuidar dos irmãos mais novos, cuidar dos animais…
Tempo para brincar?… Não que ela não gostasse… mas, a doença da mãe e dois irmãos mais pequenos, mal lhe deixavam tempo para repousar o corpo naquela enxerga que, Verão a Verão via o seu interior renovado de palha centeia dourada.
Brinquedos comprados nunca teve. A boneca de trapos, de que tanto gostava, tinha sido feita pela avó materna, numa noite longa de Inverno, enquanto o avô dormitava sobre o conforto da lareira.
Era linda! O seu vestido azul, com flores brancas, deixara de ser a blusa domingueira da avó, pois, com os anos passados as marcas dos remendos nos cotovelos eram por demais evidentes. Ao pescoço, ostentava um bonito cordão amarelo, feito de gãos de milho enfiados numa linha branca, já um pouco amarelecida pelo fumo da chaminé que em noites de vento, teimosamente, inundava toda a casa. E o cabelo? Feito de lã negra, muito negra, ondulado bem ao jeito do ripar da velha camisola que outrora servira de agasalho a sua mãe.
À noite, tal como sua mãe, Joaquina preparava o jantar para a sua bonequita, dava-lhe de comer, brincava com ela até que, já com o sono a vencer o seu dia, cantarolava-lhe uma canção de embalar, como se de sua filha se tratasse!
E antes de adormecer, Joaquina ainda tinha tempo para chamar sua mãe e dizer-lhe: – Boa noite, até amanhã!

Alguns testemunhos
«As minhas irmãs faziam as bonecas de trapos e eu fazia bolas de trapos. Era encher de trapos uma meia comprida e dobrava, tornava a enrolar e dobrava, até gastar a meia toda. E tinha uma bola para jogar…»
(Informante: António Manuel)

«Ah, coitadinhos de nós! Eu cheguei a brincar com ervas… Apanhávamos a erva e como tinha muita raiz… lavávamos aquela raiz, fazíamos umas trancinhas e eram as nossas bonecas!»
(Informante: Ti Gracinda)

«Oh, uma boneca daquelas de 10 tostões que se comprava na Senhora da Póvoa. Era de papelão e quando chegava a casa molhava-a para lavar a cara e desfazia-se toda imediatamente… lá ficava sem a boneca!»
(Informante: Ti Serafina)
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«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

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