Casteleiro – Brinquedos tradicionais comprados (2)

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

Nesta abordagem – Brinquedos tradicionais comprados – como noutras que se seguirão, procurei trazer até vós testemunhos de pessoas, que ao longo de alguns anos fui registando, procurando assim, ser o mais rigoroso possível no percurso, agora registado, entre o informando e o leitor.

Brinquedos comprados - Capeia Arraiana

Brinquedos comprados

Brinquedos comprados eram poucos e poucos foram os que com eles brincaram. Vendiam-se nas feiras e romarias: camionetas de madeira, pombas que se empurravam e batiam as asas, fogões de lata e as muito recordadas bonecas de papelão que se desfaziam ao primeiro banho…
Mas os momentos mais esperados por qualquer criança durante o ano era a grande romaria da Senhora da Póvoa e a feira de Setembro, no Sabugal (primeira quinta feira de setembro). A primeira, algumas semanas depois da Páscoa, representava um momento alto da devoção à Santinha mas, também, o local onde muitas das «novidades» espalhadas pelas várias tendas, despertavam o olhar dos pequenos e a conivência dos adultos.
Quanto à feira de setembro, ela representava o encerrar do ciclo das colheitas. Local de venda de muitos dos produtos que a generosa terra ofertava em troca do suor, sofrido, dos longos dias de Verão. Ali vendia-se de tudo: feijão grande, vermelho, manteiga, catarino, feijão-frade, milho, abóboras, mel…
Do Casteleiro, e durante uma viagem noturna, seguiam carros de bois carregados de melancias, algumas delas capazes de matar a sede a uma casa de família.
Era uma feira farta! Tudo o que a terra dava estava ali.
Neste dia, e com algum dinheiro na algibeira, era então possível satisfazer algumas das necessidades a nível do vestuário, do calçado de Inverno ou alegrar os mais pequenos com um carrinho de madeira, ou de lata, uma boneca de cartão…
Termino com dois testemunhos vivos que, por si, são suficientemente fortes para caracterizar esta época, marcada por uma vida difícil, mesmo muito pobre, em que as vivências rurais alimentam o imaginário de crianças e adultos.

«Brinquedos comprados? Quem podia…? Os brinquedos que apareciam eram normalmente de madeira e eram comprados nas feiras. Uma das ambições de qualquer garoto era ter uma camioneta de madeira. Havia umas camionetas com umas tabuinhas e umas rodinhas muito frágeis… Eram uma maravilha, para esses tempos!»
(informante A)

«Brinquedos? Poucos ou nenhuns… tive um. Lembro-me de mo comprarem num dia de festa da Senhora da Póvoa, quanto tinha três anos. Era uma pombinha que batia as asas, um carrinho assim com uma pombinha a bater as asas. Mas esse brinquedo compraram-mo porque eu tinha partido uma perna e, então, era para começar a andar. Não sabe o jeito que me deu!»
(Informante B)

«A minha irmã teve uma boneca de papelão, que eu me lembre. Um dia lembrou-se de lhe dar banho no tanque onde a minha mãe lavava a roupa de nós todos… olhe, desfez-se aquilo tudo!
Gritou tanto, tanto, tanto, que até parecia que havia de rebentar.»

(Informante B)

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«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

2 Responses to Casteleiro – Brinquedos tradicionais comprados (2)

  1. JFernandes diz:

    Caro JLGouveia:
    Brinquedos? Comprar brinquedos? Brincar? Eram frases que certamente não faziam parte do vacabulário dos nossos pais enquanto crianças.Do nosso já fariam parte mas apenas do vacabulário pois em concreto brinquedos comprados praticamente não havia. Brinquedos feitos pelos pais ou até pelas próprias crianças, sim. O problema principal é que a maior parte dos filhos do campo mais profundo, praticamente não tiveram tempo de ser crianças!…
    um abraço
    JFernandes

  2. Germana Camorim diz:

    Parabéns pela matéria, gostaria de perguntar e saber sobre a história/origem do brinquedo ciclista esta da imagem? quando se começou a criar, quando e qual a referencia para se criar ele?

    Att,

    GeCamorim

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