O Colégio de Aldeia da Ponte

Adérito Tavares - Na Raia da Memória - © Capeia Arraiana (orelha)

Em Outubro de 2010, no âmbito das comemorações do Centenário da República no Sabugal, tive oportunidade de estudar um pouco melhor a questão do encerramento do Colégio de Aldeia da Ponte. A revista «Ilustração Portuguesa», n.º 242, de 10 de Outubro de 1910, publica uma interessante reportagem sobre estes factos, com excelentes imagens do fotógrafo Ayres, da Guarda. Pelo seu ineditismo e relevância achei que poderia interessar aos leitores do «Capeia Arraiana».

1 - Reportagem da revista «Ilustração Portuguesa» de 10 de Outubro de 1910 sobre o encerramento do Colégio de Aldeia da Ponte - Adérito Tavares - Capeia Arraiana 2 - Reportagem da revista «Ilustração Portuguesa» de 10 de Outubro de 1910 sobre o encerramento do Colégio de Aldeia da Ponte - Adérito Tavares - Capeia Arraiana 3 - Reportagem da revista «Ilustração Portuguesa» de 10 de Outubro de 1910 sobre o encerramento do Colégio de Aldeia da Ponte - Adérito Tavares - Capeia Arraiana
4 - Reportagem da revista «Ilustração Portuguesa» de 10 de Outubro de 1910 sobre o encerramento do Colégio de Aldeia da Ponte - Adérito Tavares - Capeia Arraiana 5 - Reportagem da revista «Ilustração Portuguesa» de 10 de Outubro de 1910 sobre o encerramento do Colégio de Aldeia da Ponte - Adérito Tavares - Capeia Arraiana 6 - Reportagem da revista «Ilustração Portuguesa» de 10 de Outubro de 1910 sobre o encerramento do Colégio de Aldeia da Ponte - Adérito Tavares - Capeia Arraiana

(Passe o cursor nas imagens para ler as legendas e clique para ampliar.)

Alguma da informação que recolhi devo-a ao meu prezado amigo Esteves Carreirinha que, em 2008, publicou uma longa sequência de artigos sobre o Colégio no «Capeia Arraiana». (Aqui.)
O Colégio de Aldeia da Ponte foi mandado construir cerca de 1890 pelo Reverendo Dr. Francisco Graínha, da Covilhã, com a ajuda de um benemérito de Castelo Branco, o Sr. Pedro Pina, que fez uma importante doação de 80 contos de réis. Após negociações com o Padre Bento Menni, o edifício foi entregue à Ordem Hospitaleira de São João de Deus, que aí iniciou a sua notável obra de benemerência em prol dos pobres e desamparados, sobretudo crianças e adultos deficientes.
A Ordem Hospitaleira de São João de Deus permaneceu em Aldeia da Ponte entre meados de 1892 e o final de 1897, sendo o Colégio depois entregue, no início de 1898, à Ordem do Imaculado Coração de Maria, fundada pelo Padre António Maria Claret (os Claretianos, também conhecidos por frades Marianos). A sua actividade centrava-se, fundamentalmente, na evangelização e no ensino. Os novos frades, todos de origem espanhola, foram bem recebidos pela população, ao som da Banda de Música de Aldeia da Ponte, composta por cerca de vinte elementos.
Entretanto, em Abril de 1901, foi publicado um decreto, subscrito por António Teixeira de Sousa, membro do governo regenerador de Hintze Ribeiro, que definia novas regras para as Congregações Religiosas que se dedicavam ao ensino e à beneficência, obrigando-as a legalizar-se e a apresentar estatutos apropriados. As que não cumprissem a nova legislação seriam simplesmente encerradas.
Os frades espanhóis de Aldeia da Ponte legalizaram o Colégio, que manteve actividade docente regular até 1907. Com a instabilidade política crescente, sobretudo após o Regicídio de 1908, foi também crescendo o anticlericalismo e a animosidade contra o clero em geral e, muito particularmente, contra o clero regular. Cada vez se tornava mais difícil às Ordens Religiosas exercerem a sua actividade, sendo insistentemente inspeccionadas pelos serviços do Reino, no sentido de verificar os seus registos e respectivos livros de contas. A partir daqui começaram os problemas para o Colégio de Aldeia da Ponte.
Persistiu por muito tempo a convicção de que o Colégio teria cessado a actividade com a implantação da República. A verdade, porém, é que foi definitivamente encerrado poucos dias antes da Revolução do 5 de Outubro, em 12 de Setembro de 1910, por ordem do Governo do Reino, depois da realização de dois inquéritos, o primeiro no ano de 1908, e o segundo, já muito próximo do encerramento. Os inquiridores concluíram que o Colégio de Aldeia da Ponte se desviara dos objectivos e das finalidades para que tinha sido criado, deixando de cumprir as obrigações consignadas nos Estatutos e ficando reduzido a uma verdadeira casa de membros «encapotados» da Companhia de Jesus, que não tinha existência legal no País.
A má vontade contra o Colégio de Aldeia da Ponte e os seus frades já se pressentia desde há muito e, em 12 de Setembro de 1910, as autoridades administrativas do Sabugal, acompanhadas por uma força militar, expulsaram os eclesiásticos e selaram as instalações. Consumada a expulsão, o Colégio foi confiscado e todos os seus bens arrolados, até que se decidisse o seu destino. As convulsões políticas em que o País mergulhou apenas permitiram que, em 1922, se procedesse à respectiva arrematação em hasta pública. As instalações do Colégio de Aldeia da Ponte passaram, por isso, a pertencer a vários proprietários, que foram deixando cair o edifício numa quase completa ruína.
Depois de muitos impasses e demandas conseguiu-se, finalmente, que a propriedade das antigas instalações do Colégio passasse para a Associação dos Amigos de Aldeia da Ponte. O momento de dificuldades económicas e financeiras que atravessamos ainda não permitiu que se efectuasse a recuperação da igreja, que continua no estado que podemos ver no melancólico filme de Marcos Prata editado nesta crónica.


Autoria: Marcos Prata

Alguns breves comentários sobre a reportagem da «Ilustração Portuguesa»: o texto, obviamente, reflecte o clima anticlerical que então se vivia, em boa parte por influência da propaganda jacobina republicana; veja-se, por exemplo, o sentido da legenda da fotografia que, na penúltima página, mostra a escola oficial, semi-arruinada, em contraste com o «luxo» das instalações eclesiásticas. Na terceira página, na fotografia de baixo, vemos as «autoridades administrativas» do Sabugal; ao centro, de chapéu de coco, o Dr. Luís Capelo, natural das Quintas de São Bartolomeu, que tinha sido nomeado Administrador do Concelho pouco tempo antes e que seria deposto poucos dias depois: na verdade, precisamente uma semana após o 5 de Outubro, numa reunião extraordinária da Câmara, um «grupo de cidadãos» assume o poder autárquico sob a chefia do Dr. Aurélio de Almeida Santos e Vasconcelos, morgado de Sortelha.
Uma das minhas próximas crónicas será precisamente sobre esta notabilíssima personalidade sabugalense.
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«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

One Response to O Colégio de Aldeia da Ponte

  1. florindo ramos da rebolosa diz:

    ao ver estas imagens revolto -me quero fazer aqui pergunta a quem pertence este edificio sera da junta da freguisia ou pertence a alguma instituicao e lamentable deixar cair em ruinas o nosso patrimonio

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