Casteleiro – Brinquedos tradicionais (1)

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

Viajar ao mundo do brinquedo e do brincar de antigamente é mergulhar num tempo em que a «necessidade aguçava o engenho», é percorrer os campos em que os rapazes guardavam gado, à rua onde moravam, ao interior da casa onde as raparigas brincavam às bonecas e ajudavam as mães nas suas lides. Esta viagem lúdica, iniciada aqui hoje, será a primeira entre várias, registadas em forma de crónicas, e que terei muito gosto em partilhá-las com os respeitados leitores do Capeia Arraiana.

Brincadeiras - Arco e Flecha - Casteleiro - Capeia Arraiana

Brincadeiras – Arco e Flecha – Casteleiro

Miniaturizar o mundo foi uma das primeiras formas que o homem encontrou para o apropriar. Sabemo-lo hoje a partir de testemunhos das mais antigas civilizações, ligados ao sagrado e aos quotidianos.
Talvez por isso se afirme que as brincadeiras e os jogos infantis, são reproduções em miniaturas do mundo dos adultos e seus modelos sociais, perpetuando gestos milenares e ligações mágicas que chegaram até aos dias de hoje.
Antigamente, não era preciso muito para a brincadeira, desde que a imaginação não faltasse, porque a natureza oferecia o que tinha: terra, água, lama, frutos, ramos e muito espaço para sonhar e criar os seus modelos. Subir às árvores, ir aos ninhos e aos pássaros, apanhar grilos, nadar no rio, escorregar pelas pedras, jogar ao botão… Brinquedos, não os havia ou eram poucos… E os que havia eram inventados, construídos ali, no momento, ao sabor da vontade, pelas próprias crianças ou então pelos pais e muita paciência dos avós. As matérias-primas utilizadas eram as que estavam à mão: de um pedaço de cortiça podia nascer uma junta de bois, dos bugalhos dos carvalhos as panelas, das canas ou paus de sabugueiro as espingardas para ir aos pássaros, dos paus em forma de Y a fisga para executar a pontaria. Também os desperdícios da casa (trapos, restos de lã, botões, latas) se transformavam em bonecas, bolas ou carros. Os utensílios eram extensões do corpo: A mão na navalha, na agulha ou na tesoura procurava, com o engenho – irmão da necessidade -, as formas possíveis para as brincadeiras. Assim nasciam muitos dos brinquedos com que os nossos avós e bisavós brincaram!
Objetos para brincar mas hoje também para recordar, os brinquedos falam-nos sobre as pessoas que os conceberam, construíram e utilizaram e sobre o meio e a paisagem onde nasceram.

Com este trabalho procurarei testemunhos ainda vivos nesta aldeia do Casteleiro, perseguindo os rastos da memória de quem ainda produziu e brincou com estes artefactos.
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«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

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